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Marcelo Moryan é Publicitário, Designer, Escritor, Fotógrafo, Artista Multimídia e tem mais de 90 prêmios nacionais e internacionais na sua carreira.

Coluna Marcelo Moryan: Quando o botox paralisa o cérebro

Por Marcelo Moryan

Publicado em 16 de dezembro de 2025 às 14:35
Atualizado em 16 de dezembro de 2025 às 14:35

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Imagem: Marcelo Moryan

Há algo fascinante — quase antropológico — na capacidade nacional de transformar qualquer evento institucional em crise emocional com transmissão simultânea para todas as redes sociais.

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Basta uma imagem. Lula sorrindo ao lado de Daniela Beyruti, presidente do SBT – a filha mais poderosa de Silvio Santos. Alexandre de Moraes segurando um cafezinho. E pronto: metade do país entra em combustão espontânea, como se a democracia tivesse sido frita em óleo velho.

E aí, claro, surge ele: o poeta do impulso.

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Zezé Di Camargo.

Não estava lá. Não viu nada. Mas viu o suficiente na internet — aquela usina de certezas instantâneas — para gravar uma declaração inflamada em vídeo. Com a gravidade de quem anuncia uma tragédia shakespeariana, acusou as filhas de Silvio Santos de estarem “destruindo o legado do pai” e declarou que o SBT estaria “se prostituindo”.

É intrigante quando alguém enxerga prostituição onde havia apenas protocolo. Uma leitura que diz mais sobre o leitor do que sobre o texto.

A frase que nasceu desse encontro improvável entre arroubo e gramática? “Filho que não honra pai e mãe, para mim, não existe.” Se Freud estivesse vivo, desligaria o Wi-Fi da humanidade.

E o ápice: o pedido dramático para que o SBT não exibisse o “Especial de Natal: Natal é Amor” dele, já gravado, editado, vendido comercialmente. Amor — aquele sentimento que ele acabara de demonstrar tão generosamente ao acusar as filhas de Silvio Santos de prostituição.

Voilà: Zezé pediu para retirar o peru da ceia — e eles, cancelaram o Natal inteiro.

Mas o que realmente deveria nos intrigar não é o cancelamento em si. É o fenômeno que o gerou.

Há um traço peculiar nessa histeria coletiva: no Brasil, todo mundo se sente herdeiro afetivo de Silvio Santos quando precisa justificar um surto.

As filhas dele estão lá, segurando uma emissora inteira, administrando crise, agenda, audiência, anunciantes. Mas basta um artista contrariar sua própria bússola emocional para que, de repente, ele se torne guardião oficial do “verdadeiro legado”.

É a magia do ressentimento performático: não precisa conhecer a empresa para gerenciá-la moralmente.

E aqui entra o que realmente deveria nos preocupar: a opinião virou botox.

Paralisa primeiro o filtro, depois a prudência, por fim o próprio pensamento. Sente, grava, posta. A reflexão? Fica para depois — às vezes nunca.

Hannah Arendt escreveu que “a incapacidade de pensar não é estupidez; pode ser encontrada em pessoas muito inteligentes.” E é exatamente isso que assistimos: gente capaz de raciocinar complexamente sobre música, negócios, carreira — mas que, diante de um registro institucional, perde toda capacidade de processar contexto, nuance, história.

É o botox cognitivo aplicado direto no córtex pré-frontal.

Enquanto isso, Daniela Beyruti aparece com a serenidade de quem administra uma emissora, não uma seita. Diz que o SBT é imparcial, que recebe autoridades dos três poderes, que segue a linha histórica da casa: plural, aberta, sem partido.

E ela está certa — mas dizer isso hoje é quase um ato de rebeldia.

Lula no SBT não é traição — até porque já foi recebido e abraçado várias vezes pelo próprio Silvio Santos. Moraes tomando café não é heresia. Diretoria sorrindo não é adesão ideológica.

É apenas a normalidade institucional — mas normalidade, hoje, é heresia.

Mas num país onde política virou religião invertida — onde cada gesto é lido como sacramento ou sacrilégio — qualquer aceno vira ato de fé ou traição suprema. Não importa o que você faça: se receber aquele político, você traiu. Se sorrir para aquela autoridade, você se vendeu.

O que está em jogo não é a imparcialidade do SBT. É algo mais profundo e muito mais perigoso: o ego contemporâneo perdeu a capacidade de lidar com o fato de que o mundo não gira no seu eixo emocional.

E aí volto ao título — e à metáfora inevitável: quando o botox congela o cérebro, a opinião continua se movendo.

E é aí que mora o perigo.

Porque a boca funciona. O vídeo grava. A internet replica. O cancelamento acontece.

Mas a ideia… essa ficou presa, imobilizada no ponto exato onde a indignação substituiu o raciocínio.

Quando alguém acusa o mundo de se prostituir, será que está descrevendo o mundo — ou apenas confessando que o botox já chegou ao pensamento?

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