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Marcelo Moryan é Publicitário, Designer, Escritor, Fotógrafo, Artista Multimídia e tem mais de 90 prêmios nacionais e internacionais na sua carreira.

Coluna Marcelo Moryan: Era noite de natal, e eu estava prestes a matar minha Mãe

Por Marcelo Moryan

Publicado em 21 de dezembro de 2025 às 18:00
Atualizado em 21 de dezembro de 2025 às 18:00

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Ilustracao
Foto: Marcelo Moryan

Era noite de Natal, e eu estava diante de um momento perfeito.

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A ceia havia terminado. O barulho das conversas forçadas — aquelas sobre política que ninguém queria ter, sobre parentes que ninguém via há anos — tinha finalmente se dissipado. A casa respirava um silêncio cansado, quase aliviado. Minha mãe, sentada numa poltrona, tinha o rosto em repouso. A luz da árvore de Natal batia de lado, dourada, quase líquida, revelando a beleza que só acontece quando ninguém está performando. Não sorria. Não posava. Apenas existia.

Minha mão foi até a câmera — o gesto automático, o reflexo pavloviano do nosso tempo. Meus dedos já conheciam o caminho: enquadrar, ajustar o foco, disparar. Mas eu parei.

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Porque percebi algo que me assustou: eu estava prestes a matar aquele momento para poder guardá-lo.

A câmera, que sempre foi minha forma de ver o mundo, tinha se tornado minha forma de não vê-lo. Cada clique, um epitáfio. Cada disparo, um atestado de óbito. Eu estava, na minha compulsão por registros, virando o coveiro do meu próprio presente. E minha mãe, sem saber, seria apenas mais uma vítima do meu necrotério digital.

Esse impulso — esse reflexo de coveiro digital — é o que define o nosso Natal moderno.

Se a vida se tornou uma galeria de troféus, o Natal é a sua exposição de gala. É o campeonato mundial de curadoria existencial, a Olimpíada da Felicidade Comprovada. A pressão pela árvore perfeita (de preferência com neve fake e luzes sincronizadas), pela mesa posta como se Gordon Ramsay fosse aparecer para julgar, pela selfie com sorrisos tão sincronizados que parecem coreografados por um diretor de cinema mudo.

Enquanto isso, na curadoria frenética do celular, apagamos não apenas as fotos tremidas, mas as conversas difíceis, as mágoas não resolvidas, os silêncios constrangedores que deveriam ter virado abraços. O peru pode estar seco, mas o sorriso para a câmera tem que estar suculento. A ceia pode ter sido um campo de batalha disfarçado de confraternização, mas o feed precisa gritar harmonia.

Transformamos o Natal num reality show de nós mesmos — com direito a edição, filtro e trilha sonora de Mariah Carey. E o pior: acreditamos na própria montagem.

Mas a foto que eu não tive coragem de tirar naquele dia continua comigo.

Não está no meu celular. Não está nas nuvens. Não tem likes, não tem comentários, não tem aquele coraçãozinho vermelho que valida que algo realmente aconteceu.

E, no entanto, lembro dela melhor do que qualquer foto que já tirei.

Porque, ao me recusar a capturá-la, eu escolhi vivê-la. Escolhi guardar o calor da luz, o peso do silêncio, a beleza real de um rosto amado — em vez de uma coleção de pixels frios esperando para serem esquecidos no meio de 47 mil outras imagens que nunca mais vou rever.

Aquele momento não virou conteúdo. Não virou prova. Não virou troféu. Virou memória.

E memória, ao contrário do feed, não precisa de Wi-Fi para existir.

Afinal, de que vale um arquivo de Natais perfeitos, se a memória mais preciosa é justamente aquela que não existe em lugar nenhum?

Talvez o verdadeiro presente de Natal não seja o que está embrulhado debaixo da árvore. Nem o que está postado no Instagram com a hashtag #FamíliaAbençoada. Talvez seja a coragem de deixar alguns momentos morrerem em paz — sem ressuscitá-los em formato JPEG.

Porque, no fim, o que realmente importa não é o que conseguimos provar que vivemos.

É o que conseguimos viver sem precisar provar.

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