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Coluna Marcelo Moryan: BBB – a “Bosta Bem Bosta” que virou “Cultura”
Por Marcelo Moryan
Publicado em 25 de janeiro de 2026 às 15:00
Atualizado em 25 de janeiro de 2026 às 15:00
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Nota ao leitor apressado: Não pratique cultura de almanaque. Não deixe seus neurônios, já tão fatigados, elaborarem conclusões precipitadas apenas pelo título. Leia até o fim, please. A ironia, assim como o diabo, mora nos detalhes.

Sempre acreditei que a evolução intelectual exige a coragem de levar um tapa na cara do próprio ego. Gosto de pensar que não sou burro em tempo integral, mas para isso é preciso estar disposto a ouvir o impensável. Se estou diante de uma pedra e alguém me diz que aquilo é um feijão, minha reação primitiva é diagnosticar o sujeito com loucura ou excesso de entorpecentes. Mas a evolução mora na pergunta seguinte, aquela que dói: “E se ele tiver razão e eu for o cego?”
Foi com esse espírito de autocrítica — e uma dose cavalar de resignação — que precisei rever meu dicionário pessoal. Durante anos, para mim, a sigla BBB significava apenas Bosta Bem Bosta. Um lixo radioativo que eu evitava com a superioridade moral de quem lê os russos no café. Até que li um comentário de um internauta, provavelmente um desses “Manés” que eu desprezava, dizendo: “BBB também é cultura”.
Meu primeiro reflexo foi o riso do arrogante. Mas, lembrando da pedra e do feijão, parei. Pensei. E cheguei à conclusão aterrorizante de que o Mané estava certo.
O BBB não é cultura de biblioteca, de elevação do espírito. É cultura de laboratório, de placa de Petri. Há vinte anos, o programa era uma novidade ingênua. Hoje, ele é o atavismo televisionado. A nossa loucura coletiva chegou a tal ponto que o confinamento age como um soro da verdade. O sujeito lá dentro, dopado pelo narcisismo e pela pressão daquele “Quarto Branco” — que mais parece uma versão pop das torturas sensoriais da CIA ou o pânico luminoso de uma solitária moderna —, esquece as câmeras. E é no esquecimento que a máscara cai.
O que vemos na tela não é um jogo. É a vida aqui fora, sem o filtro da hipocrisia social.
Vejam o caso do tal Pedro e da Jordana no BBB 26. O momento em que ele segura o pescoço dela não foi um erro de cálculo; foi uma confissão. Ao justificar com um “Estou fazendo o que tô com vontade”, ele não falava apenas por si. Ele ecoava a voz de milhares de pequenos tiranos domésticos, de chefes abusivos, de uma sociedade que naturalizou a posse do outro.
Ali, no horário nobre, o BBB se revelou o que realmente é: o Bestuário de Bárbaros Banais.
Nós nos tornamos primatas avacalhados, assistindo a outros primatas em uma jaula de vidro, sem perceber que o vidro é, na verdade, um espelho. O choque que sentimos ao ver o Pedro agir com a naturalidade de um senhor de engenho na senzala, ou com a autoridade moral de um talibã que proíbe a mulher de existir, não é o choque da diferença. É o choque do reconhecimento.
O preconceito que temos com o programa talvez não venha de sua baixa qualidade técnica, mas de sua alta fidelidade antropológica. Ele nos mostra exatamente como nos encontramos neste momento da história: vazios, violentos e guiados por impulsos que deveriam ter ficado no Pleistoceno.
É como se um bicho assistisse ao outro na jaula, rindo da estupidez alheia, enquanto segura a própria banana com a mesma mão que oprime. Muitas doidices ainda virão até o final desta edição, e todas elas serão plenamente condizentes com a barbárie da esquina.
O BBB é cultura, sim. É a cultura do nosso fracasso civilizatório, transmitida em 8K para quem tiver estômago para ver que o feijão, na verdade, sempre foi uma pedra na nossa mão.
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