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Marcelo Moryan é Publicitário, Designer, Escritor, Fotógrafo, Artista Multimídia e tem mais de 90 prêmios nacionais e internacionais na sua carreira.

Coluna Marcelo Moryan: “Eu morri. Eles viajaram”: a última entrevista de Orelha

Por Marcelo Moryan

Publicado em 1 de fevereiro de 2026 às 15:00
Atualizado em 1 de fevereiro de 2026 às 15:00

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Imagem: Marcelo Moryan

Eu não queria escrever sobre o Orelha.

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Mas aqui estou, às 3 da manhã, com um detalhe me queimando por dentro: no dia 5 de janeiro, algo aconteceu numa clínica veterinária que ninguém deveria precisar testemunhar. A eutanásia. A palavra bonita para “eu não consigo salvá-lo, só posso impedir que continue gritando em silêncio”.

E se eu pudesse entrevistar esse cachorro, no limbo entre o sofrimento e a piedade, nos segundos elásticos entre a consciência e o apagamento, o que ele me diria?

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Chamei o Orelha. Educado que é, ele abanou a cauda e veio — cambaleante, com o crânio rachado ainda latejando, vazando promessas que nenhum profissional podia cumprir.


A Entrevista:

Eu: Orelha, você abanou o rabo quando viu aqueles adolescentes, não foi?

Orelha: (Ele ri. Um riso fraco, molhado de sangue invisível.)

Abanei com tudo que restava. Cão não nasce sabendo ler maldade em pupila de gente jovem. Pra mim, garoto é sinônimo de carinho, energia, brincadeira. Vi os adolescentes e pensei: “finalmente, companhia”.

Era 4 de janeiro, sábado de verão em Praia Brava, onde a areia queima e o mar chama. Confiei neles. E o pior da história? Meu último sentimento consciente antes do golpe foi gratidão. Eu estava feliz de vê-los.

Eu: E aí?

Orelha: Aí eu descobri que confiança é um luxo que vira-lata não pode dar ao acaso. O ataque veio rápido. Objeto contundente — até hoje ninguém identificou qual, porque esconderam como quem enterra corpo de crime.

A cabeça. Foi isso que escolheram destruir.

Um estalo oco. Como fruto quebrando, só que o fruto era meu cérebro, minha memória de uma década de sol quente, meu arquivo de cheiros bons, de manhãs felizes. Minhas patas falharam, sangue quente escorreu pelo focinho — aquele ferro líquido grosso que tem gosto de metal e pavor.

O silêncio depois foi devastador. Eles evaporaram, me abandonaram ali, tingindo de vermelho o paraíso onde eu tinha escolhido viver livre.

Eu: Quanto tempo você ficou agonizando?

Orelha: Não sei dizer em horas. Pra quem tem a calota fraturada, com fragmentos de osso perfurando a massa mole onde moram todos os sonhos de cachorro, o tempo vira uma eternidade elástica.

Me arrastei, tentei me esconder debaixo de uma sombra, como se a escuridão pudesse me curar. Cada movimento era um terremoto. Meu olho esquerdo — aquele que o veterinário disse estar “comprometido” — não enxergava mais. Só registrava o peso do sangue seco nas pálpebras.

O tormento era tão imenso que desejei o fim. Rezei pra morte. Mas ela não veio. Ficou rondando, me provocando, como criança cruel que arranca asa de mosca pra cronometrar quanto tempo ela aguenta.

Até que alguém me encontrou, me levou correndo pra clínica. E foi ali, na mesa fria de inox, que eu percebi pelo cheiro de desinfetante: não tinha conserto.

Eu: A eutanásia… me conta.

Orelha: Foi 24 horas depois de ter confiado em quem não devia. O Veterinário me encarou com aquela expressão que todo bicho reconhece: a de quem compreende que salvar, às vezes, é desistir.

E aí aconteceu o que me partiu. Ele chorou enquanto carregava a seringa.

Não foi choro de pena. Foi de vergonha — daquela que corrói, de pertencer à mesma espécie que fez aquilo comigo, de que sua única solução fosse um composto rosa numa agulha.

Me acariciou, passou os dedos no meu pescoço, o único lugar que não ardia. Pediu desculpas em nome dos que me destruíram. E eu… eu lambi a palma dele. Porque, mesmo espatifado e morrendo, eu ainda tinha fé de que existia bondade naquela sala.

Eu: Você sentiu a picada?

Orelha: Senti. Foi a primeira vez, desde o sábado, que experimentei algo além do tormento. A substância entrou morna, quase gentil. Tudo ficou suave, como se as manhãs quentes de Praia Brava voltassem a me abraçar — mas dessa vez sem medo, sem perigo, sem aqueles rostos jovens.

O sofrimento… finalmente cessou.

E a última coisa que pensei foi: “Obrigado”. Ao único humano que me devolveu dignidade quando me arrancaram tudo. Ele me deu o que aqueles adolescentes jamais terão: compaixão.

Eu: O que você diria a ele agora?

Orelha: “Doutor, obrigado por ter sido mais humano do que os humanos que me machucaram.”

E enquanto eles, os malvadões, dormem agora em travesseiros macios, sonhando com Miami, eu finalmente posso descansar.

Eu: Esses garotos… o que eles vão virar?

Orelha: (Uma pausa longa.)

Vocês estão criando psicopatas de jaleco.

Jeffrey Dahmer começou dissecando animais. Ted Bundy treinava a crueldade em bichos antes de assassinar mulheres. Quem consegue esfacelar a calota de um cão num sábado ensolarado, ouvir o barulho dos ossos se partindo, testemunhar o sangue escarlate escorrer, e ir pra casa jantar pizza como se nada tivesse acontecido, já está morto por dentro.

Mas não é uma morte triste. É útil. É o fim da empatia que libera espaço para algo muito mais eficiente: a sociopatia funcional.

Esses jovens de bairro onde imóvel custa R$ 20 milhões — amanhã podem estar com um bisturi na palma, julgando você, governando, decidindo quem vive e quem perece.

Eu fui o treino. E vocês acham que foi “coisa de fase”?

Eu: Teve mais, não teve? Outro cão…

Orelha: Caramelo. Tentaram afogar o Caramelo antes de mim. Pegaram ele no colo — aquele gesto que deveria significar proteção — e atiraram no mar pra cronometrar quanto tempo ele nadaria desesperado antes de desistir.

Isso prova o quê? Não foi impulso. Foi método. Foi sadismo planejado. Laboratório de crueldade, experimento para calibrar até onde podem ir. Caramelo sobreviveu. Eu não. Quem será o próximo? E quando a próxima vítima terá duas pernas em vez de quatro?

Eu: A Justiça diz que são menores. Que merecem “medida socioeducativa”.

Orelha: (Ele gargalha. É um som estranho, porque cachorro não deveria saber rir assim.)

“Medida socioeducativa” é a versão chique de “impunidade”. É o eufemismo que vocês inventaram para não encarar o monstro que gestaram. Construíram um sistema que protege o algoz e enterra a vítima duas vezes: primeiro no solo, depois na burocracia.

Enquanto eu expirava na mesa de inox, dois deles já embarcavam rumo aos Estados Unidos, em viagem pré-programada. Família com grana. Defensor bom. Passaporte carimbado. Instagram com foto em frente à estátua da liberdade.

Eu morri. Eles viajaram.

E o mais perturbador? Meu cérebro se afogava em hemoglobina enquanto alguém reservava assento na janela. O veterinário enxugava lágrimas enquanto alguém fazia check-in. Eu exalava meu último suspiro enquanto eles escolhiam qual filtro usar na selfie.

Eu: Se você pudesse voltar…

Orelha: (Ele hesita. Pela primeira vez, noto medo.)

Voltaria mil vezes para sentir o sol, a brisa do mar salgado no focinho, os dez anos de liberdade que conheci. Verões escaldantes. Invernos amenos. Ciclos de turistas que vinham e iam, alguns que me alimentavam, outros que me ignoravam.

Mesmo ciente do fim, mesmo sabendo que a última palma que eu sentiria seria a que segurou o objeto que partiu minha calota ao meio… ainda assim, sim, voltaria.

Porque viver com medo não é viver. E morrer confiando ainda é mais digno do que sobreviver desconfiando. Eu fui livre. Eles são prisioneiros de uma doença que nem reconhecem. Tive uma existência inteira sob o céu aberto. Eles terão décadas de vazio — preenchidas com advogados, com escapadas para apagar memórias, com a pergunta que um dia baterá na porta deles, de madrugada: “O que eu sou?”

E ninguém responderá.


O Silêncio Depois

Orelha sumiu na névoa, carregando consigo aquilo que lhe deram — e as últimas horas que o suplício que lhe roubaram.

Queria ter a esperança dele, aquela capacidade de confiar mesmo após tudo. Mas meu DNA humano, esse código defeituoso e cínico que carrego, não me engana: a maldade humana só tende a se superar.

Não evolui. Não cresce. Não amadurece.

Apenas se aperfeiçoa.

A verdade é que Orelha abanou o rabo para a espécie errada. E nós provamos — com requintes de crueldade e passagens de avião — que a única diferença entre nós e os animais é que matamos por esporte, documentamos no celular e depois contratamos advogado.

Do diabo, é claro.

A questão que permanece não é “como alguém faz isso?”

O que realmente importa é: “quantos Orelhas cabem no currículo de um psicopata antes que parem de chamar de fase?”


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