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Coluna Marcelo Moryan: Você acredita em Deus? “Eu, não…”
Por Marcelo Moryan
Publicado em 8 de fevereiro de 2026 às 15:00
Atualizado em 8 de fevereiro de 2026 às 15:00
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Outro dia, alguém me perguntou se eu acredito em Deus.
Eu, não.
Pelo menos não naquele dos cultos obrigatórios, dos dízimos negociados como apólice de seguro celestial, transformado em gerente de banco cósmico que só libera bênçãos mediante boas métricas de fidelidade. Não acredito no Deus das palavras — porque esse virou desculpa conveniente para não vivê-Lo.
A história está entupida de gente que O usou para matar, torturar, acumular fortunas e disseminar ódio.
Mas acredito em quem pratica compaixão sem plateia celestial, estende a mão sem expectativa de recompensa divina, vive justiça porque é o certo — não porque teme o inferno.
Porque a verdade incômoda é esta: uma pessoa que acredita numa pedra mas age com empatia está infinitamente mais próxima do sagrado do que o devoto que frequenta templos mas espalha hipocrisia. Se Deus existe, Ele se manifesta no que você faz, não no que você diz. E se você precisa anunciar que acredita, talvez não acredite tanto assim.
A Hipocrisia Usa Crucifixo
Dennis Rader. BTK — Bind, Torture, Kill.
Dez vítimas entre 1974 e 1991. Estrangulamento, tortura, sadismo meticuloso.
E presidente do conselho da igreja luterana Christ Lutheran Church, no Kansas.
Participava dos cultos. Organizava eventos. Lia a Bíblia em voz alta.
Um homem de Deus exemplar.
Até a polícia bater na porta.
Você pensa que é exceção?
A história está repleta de gente que assassinou, escravizou, torturou em nome do divino. Cruzadas, Inquisição, guerras santas, genocídios carimbados com benção celestial. Deus sempre esteve do lado de quem empunhava a espada mais afiada.
E antes que você relegue isso ao passado distante, olhe ao redor. Templos viraram shoppings da hipocrisia, “homens de Deus” acumulam riquezas obscenas pregando humildade, púlpitos servem para disseminar ódio enquanto dizem representar o amor.
“O homem nunca faz o mal tão completamente e alegremente quanto quando o faz por convicção religiosa.” — Blaise Pascal sabia disso no século XVII. Nós, no XXI, ainda fingimos surpresa.
A Performance da Fé
Há algo patológico numa espiritualidade medida em frequência de cultos e postagens inspiracionais. Como se o divino fosse algoritmo que recompensa engajamento.
Nietzsche já avisava: transformamos o amor em performance. Fé virou show, devoção virou networking, salvação virou produto com parcelamento em doze vezes.
Se você lista todas as passagens bíblicas de cor mas não consegue listar uma ação concreta de empatia que praticou esta semana… você acredita em quê, exatamente? No conforto de pertencer a um clube? Na ilusão de superioridade moral? No medo do inferno?
Você pode recitar mil versículos, genufletir até gastar os joelhos, pagar todos os dízimos. Mas se não há empatia tangível, justiça concreta, bondade sem plateia — então não passa de teatro bem ensaiado.
O Monopólio do Sagrado
O mundo não gira ao redor do seu Deus.
Bilhões de pessoas encontram significado em tradições diferentes da sua, veem o sagrado em símbolos que você talvez nem reconheça. Todas acreditam, com a mesma convicção, que estão certas.
E se o divino for grande o suficiente para caber em todos esses nomes? E se o problema nunca foi a pluralidade, mas nossa necessidade doentia de monopolizar o sagrado?
Lily Tomlin, a comediante americana que passou décadas dissecando hipocrisias sociais com bisturi afiado, capturou essa esquizofrenia coletiva numa frase:
“Quando falamos com Deus, estamos orando. Quando Deus fala conosco, somos esquizofrênicos.”
A observação é engraçada até percebermos o que ela expõe: a linha entre fé e fanatismo é tênue, depende apenas de contexto social. Quantos líderes religiosos afirmam “ouvir Deus” e usam essas vozes para justificar ódio, acumulação de riqueza, controle? Em qualquer outro cenário, seriam internados. Mas no púlpito, viram profetas.
Então, Você Acredita?
Eu, não. Pelo menos não da forma como essa pergunta costuma ser feita.
Porque no fundo, ninguém realmente quer saber em que você acredita. Querem saber se você está no mesmo clube, usa o mesmo crachá, repete as mesmas senhas.
A pergunta certa nunca foi “você acredita?”
A pergunta certa é: “como você vive?”
Mas essa segunda pergunta é desconfortável. Exige prestação de contas. Não tem carteirinha de sócio, culto aos domingos para marcar presença, algoritmo de likes para validação.
Talvez o problema nunca tenha sido a falta de fé. Talvez seja o excesso de certeza. A convicção inabalável de que Deus está do seu lado, aprova suas escolhas, valida seus preconceitos.
Então, sim: você acredita?
Ou apenas carrega um amuleto invisível para se sentir superior, protegido, justificado?
Porque se a resposta importasse mesmo, você não precisaria dizê-la.
Estaria vivendo de forma que tornasse a pergunta irrelevante.
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As informações e/ou opiniões contidas neste artigo são de cunho pessoal e de responsabilidade do autor; além disso, não refletem, necessariamente, os posicionamentos do folhaonline.es