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Coluna Marcelo Moryan: Sabe de nada, inocente
Por Marcelo Moryan
Publicado em 15 de março de 2026 às 15:00
Atualizado em 15 de março de 2026 às 15:00
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Tem um ritual que repito toda manhã com meu café amargo: leio o jornal esperando encontrar algo que restitua minha fé na humanidade. Tem uns anos que parei. Não é cinismo. É desilusão educada. Entre o primeiro e o segundo gole, você vai notando que as notícias repetem seu padrão como batida de metrônomo. A esperança funciona como combustível de máquina — alimenta egos inflados que se acham donos do mundo. Padres, pastores, políticos, banqueiros, ministros, influenciadores. Todos construindo narrativas de inocência enquanto vivem o oposto.
E aí vem a pergunta que muda tudo: e se parássemos de esperar que eles mudem?
Vorcaro está preso na Penitenciária Federal. Banqueiro desconhecido até há quatro meses, mas importante o suficiente para o centrão mapear votos no STF — não por justiça, mas porque sua boca é um arquivo vivo. Se abre em delação premiada, a república desaba. Então todos, em harmonia surpreendentemente perfeita, trabalham para que ele continue silencioso. Seus advogados entram sem gravação. O sigilo profissional como passaporte.
Marcola comanda crime daquele mesmo lugar. Pede o mesmo direito. A resposta? A mesma lei, o mesmo STF, as mesmas garantias — mas seletivas, contraditórias, dependentes de quem é o preso.
Você fecha o jornal por um momento. Respira.
Padres pregam moralidade enquanto escondem abuso. Pastores fidelidade no púlpito, motel na prática. Esquerdistas criticam o capitalismo do Wi-Fi de 1 gigabyte do apartamento de 2 milhões que herdaram. Direitistas defendem ordem moral enquanto admiram corruptos que vestem seu time. Influenciadores vendem vida perfeita enquanto exploram menores. Quando descobertos — e sempre são — todos oferecem o mesmo bordão: “Sabe de nada, inocente.”
Você entende que o padrão não é exceção. É a estrutura. É como funciona.
Cada instituição toca sua parte na sinfonia do silêncio. O violino da impunidade. A flauta da inviolabilidade profissional. O clarinete do sigilo advogado-cliente. Menos o trombone. O trombone é alto demais, não dá para ignorar, ecoa nas ruas. É a verdade que nenhuma instituição consegue silenciar se o esgoto começar a jorrar.
Aqui é onde a maioria das leituras para — é quando o cinismo se instala como verdade final e você sente o peso daquilo que não pode mudar.
Mas há um detalhe que as análises convencionais nunca tocam: a política define nossas vidas, isso é inegável. Porém o voto só importa para quem o recebe. O sistema importa para quem o controla. Esta é a realidade nua e crua.
E se tudo começasse do zero entre você e quem está ao alcance de seus olhos? Em algumas gerações, talvez, a esperança voltasse a fazer sentido. Não porque o sistema vai mudar — ele não vai. Mas porque você construiu algo tão denso, tão real, tão tecido de amor nos lugares microscópicos que importam, que o sistema vira decoração irrelevante.
É o que chamo de Amor Fati Social: aceitar a realidade corrupta do mundo — não com resignação, mas com clareza radical — e a partir dessa clareza, escolher amar as pessoas com intencionalidade brutal. Significa canalizar a energia que se esvai esperando que Vorcaro fale, que o padre mude, que o voto importe, e usar esse combustível para construir algo pequeno, real, durável com quem você ama. É reconhecer que o sistema não mudará por você esperar, mas pode ser irrelevante para sua vida se você parar de depender dele para ser feliz.
O sistema não teme gritos nas ruas. Teme você vivendo bem, amando, cuidando de quem está ao seu lado. Porque quando você não precisar mais deles para ser feliz, você vira inútil para a máquina. E quando milhões assim se tornam inúteis — porque estão ocupados construindo vidas reais — o sistema descobre o que é medo de verdade.
Vorcaro não falará. Você já sabe disso — e se falar, será apenas para se beneficiar, não para mudar nada. A instituição não mudará. O sistema não se redimirá. Mas você terá escolhido construir algo que não depende de nenhum deles. Muitos dirão: Sabe de nada, inocente. Mas dessa vez, você é o inocente que sabe.
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As informações e/ou opiniões contidas neste artigo são de cunho pessoal e de responsabilidade do autor; além disso, não refletem, necessariamente, os posicionamentos do folhaonline.es
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