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Coluna Marcelo Moryan: A polícia federal adora governo de esquerda
Por Marcelo Moryan
Publicado em 22 de março de 2026 às 18:00
Atualizado em 22 de março de 2026 às 18:00
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O Brasil é o único laboratório institucional do mundo onde o governante financia o próprio carrasco e chama isso de estratégia republicana. Em Brasília, nos corredores do Setor de Autarquias Sul, existe um romance inconfessável entre o poder e a Polícia Federal — não o sussurram porque as paredes têm ouvidos e memória. A corporação federal adora regimes de esquerda.
E não é paixão de botequim ou ideologia estampada em camiseta. É puro pragmatismo: enquanto uns tentam domesticar o cão de guarda com coleiras curtas e trocas de comando, outros soltam a fera, oferecem carne de primeira e, com a precisão de uma lei da física, acabam mordidos.
A matemática da autonomia não aceita sofismas. Durante o que chamarão de “era petista”, a corporação viveu um surto de masoquismo institucional que se transformou em liberdade verdadeira. Leandro Daiello permaneceu na cadeira de Diretor-Geral por seis anos e dez meses. Luiz Fernando Corrêa garantiu quase quatro antes dele. Essa estabilidade não é burocracia — é o oxigênio que permitiu investigações como a Lava Jato e o Mensalão amadurecessem até devorarem o próprio regime que as sustentava.
O paradoxo supremo: a esquerda assinou as leis que blindaram delegados (12.830/2013 e 13.047/2014) e fabricou, com as próprias mãos, as algemas que depois estalariam em seus pulsos.
Quando a direita de Jair Bolsonaro chegou, o pragmatismo desapareceu. Chegou a paranoia.
Quatro Diretores-Gerais em quatro anos. Uma rotatividade que visava, com a sutileza de um elefante em loja de cristais, o controle do fluxo investigativo. Quando o cerco apertava, trocava-se o xerife. Vinte trocas em cargos de chefia em menos de um mandato — porque a “autonomia” da direita era apenas isto: a prerrogativa do chefe de escolher quem o investigava.
Aí entra Sergio Moro.
Talvez o maior embuste que a justiça brasileira já fabricou em série. Um ídolo de porcelana que, ao trocar toga por ministério, revelou a verdade: sua independência era verniz barato que descascava à primeira pressão do Planalto. Moro não foi salvador da pátria. Foi o arquiteto de uma parcialidade que hoje funciona como manual prático sobre como destruir a credibilidade do Judiciário — e deixar provas documentadas disso.
Vorcaro já caminha a passos largos para a delação premiada — graças à Polícia Federal. E sua delação é tão temida que une a esquerda e a direita numa frente única de terror silencioso. Porque se ele realmente resolver contar o que sabe, você vai entender que seu político de estimação (esquerda ou direita) tem cheiro de esgoto. Lealdade no submundo do poder tem a validade exata de um café que esfria em sala de interrogatório.
Agora a parte que interessa: não estou vendendo teorias aqui. Os decretos de nomeação estão lá. Os orçamentos no Portal da Transparência. As leis que blindaram delegados levam a assinatura de quem hoje é criticado pela própria corporação que protegeu. A realidade é um hóspede indesejado para quem vive de narrativas — mas números não mentem. A instituição nunca foi tão independente quanto no momento em que teve permissão para morder a mão de quem a alimentava.
Os que têm preguiça de pesquisar sussurrarão que esta é uma coluna para valorizar a esquerda. Acusarão de campanha, de viés, de dizer muita coisa — porque é mais fácil discordar que investigar. Mas a verdade é outra: celebro a autonomia institucional. Uma corporação tão desvinculada do regime que a blindou consegue desvencilhar-se com precisão cirúrgica. Coloca a lealdade à lei acima da lealdade ao poder. Morde quando precisa — e não me importa qual administração sangra.
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