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Coluna Marcelo Moryan: O Mercador de Brasília
Por Marcelo Moryan
Publicado em 10 de março de 2026 às 16:08
Atualizado em 10 de março de 2026 às 16:08
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Há uma cena que o teatro conhece de cor e que a política insiste em encenar como se fosse novidade: o momento em que o homem com a faca erguida descobre, tarde demais, que é ele quem está amarrado à mesa. No Brasil de hoje, essa cena não acontece sob holofotes de palco. Acontece no interior de um celular apreendido e no holofote de um contrato que preferia a sombra.
William Shakespeare escreveu sobre isso há mais de quatrocentos anos. Em O Mercador de Veneza, um credor chamado Shylock — duro, metódico, sem piedade — exige de seu devedor o pagamento em forma literal: uma libra de carne, cortada com precisão, sem acordo, sem clemência. Shylock quer a lei. Só a lei. Confia cegamente no sistema que lhe garante o poder de empunhar a faca. Em linguagem direta: é o homem que prefere a vingança ao bom senso, e acredita que as regras do jogo sempre jogarão a seu favor.
A genialidade da peça não está na cobrança — está na reviravolta. Diante do tribunal, a advogada Pórcia concede a Shylock exatamente o que ele pediu, com uma ressalva pequena e fatal: pode cortar a carne, mas não pode derramar uma única gota de sangue, sob pena de perder tudo. O rigor absoluto, quando levado ao extremo e esvaziado de moderação, engole o próprio carrasco. A faca encontra quem a afiou. Sempre foi assim — sempre será.
Nos últimos anos, o Brasil assistiu à ascensão de uma figura que, com inegável coragem institucional e uma dose generosa de convicção própria, assumiu o papel de guardião da ordem democrática. O ministro Alexandre de Moraes empunhou com determinação os instrumentos do Estado para conter o que classificou como ameaças à República. Multas expressivas. Prisões preventivas longas. Bloqueios de plataformas digitais. Tudo, declarou, em nome da preservação do sistema. Moraes tornou-se, para seus apoiadores, a encarnação do rigor punitivo. Para seus críticos, algo mais próximo de Shylock do que de Pórcia. Para a história, ainda é cedo.
Mas a vida, como o teatro, adora uma ironia que não avisa antes de chegar.
Eis que o destino, travestido de inquérito, traz ao palco um novo personagem: o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master — instituição que ocupou páginas de jornal por razões que o mercado ainda digere com desconforto. Com ele, segundo o que foi apurado e amplamente noticiado pela grande imprensa brasileira, o enredo abandona os salões do Supremo e desce ao nível do cotidiano — aquele onde moram os contratos de gaveta e as mensagens que somem.
A ironia tem sabor shakespeariano. Tornados públicos pela imprensa no curso das investigações, documentos revelam um contrato de honorários de R$ 129 milhões firmado entre o banco do investigado e o escritório de advocacia associado a cônjuge do ministro — valor que a própria advogada confirmou publicamente, detalhando reuniões e pareceres. Os registros apontam, ainda, para supostas mensagens trocadas entre o banqueiro e o ministro na manhã da prisão — programadas para desaparecer após a leitura, como se o passado pudesse ser apagado com um simples toque na tela.
O homem que ergueu a maior estrutura de vigilância digital da história recente do país — aquele que ordenou a quebra de sigilos, que fez da transparência compulsória uma doutrina, que leu nas sombras o que outros escreveram — vê-se, agora, enredado na efemeridade daquilo que some. O mesmo instrumento que serviu de lupa para tantas investigações expõe, desta vez, os contornos de relações que pedem explicação.
É aqui que o argumento de Pórcia ganha peso fora do palco. Não se questiona o direito — e o dever — de um magistrado defender a ordem constitucional. O que a dramaturgia clássica nos ensina, com a paciência dos séculos, é que o exercício concentrado do poder exige correspondência moral sem fissuras. Não como exigência partidária. Como condição estrutural: quem define o padrão pelo qual os outros serão julgados precisa ser o primeiro a suportá-lo. Não por obrigação legal — por coerência narrativa. E a vida, como Shakespeare bem sabia, é muito sensível à sua ausência.
O contrato e as mensagens apagadas são, na arquitetura desta história, a gota de sangue que o roteiro não previa. Não são, por si sós, provas de crime — e que a justiça, com o tempo que lhe é próprio, determine o que foram. Mas são exatamente o tipo de detalhe que corrói a imagem de quem ergueu seu escudo sobre a exigência de perfeição alheia. A menor mancha no próprio quintal ganha proporções que nem os adversários mais determinados conseguiriam impor de fora.
Os gregos tinham uma palavra para isso: húbris — é quando o homem que se crê intocável esquece que o chão existe. E o chão, invariavelmente, lembra. Não por meio de grandes batalhas épicas, de generais e tanques, nem pela voz dos extremistas. O implacável magistrado foi alcançado por uma conversa de WhatsApp — simples assim.
No grande teatro da política brasileira, a lei que salva é, com frequência, a mesma que afoga. Resta saber se, ao final deste ato, o Mercador de Brasília conseguirá deixar o tribunal apenas sem a sua libra de carne — ou se a gota de sangue, essa que nenhum estrategista antecipou, vai manchar a toga para muito além desta temporada de caça e caçador.
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As informações e/ou opiniões contidas neste artigo são de cunho pessoal e de responsabilidade do autor; além disso, não refletem, necessariamente, os posicionamentos do folhaonline.es
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