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Marcelo Moryan
Coluna Marcelo Moryan

Marcelo Moryan é publicitário, designer, escritor, fotógrafo e artista multimídia, reconhecido por uma produção que combina precisão técnica, poesia visual e olhar crítico sobre o cotidiano.

Coluna Marcelo Moryan

A vida perfeita dos influencers

Por Redação Folhaonline.es
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Ilustração: Marcelo Moryan

Quem passeia pelo feed conhece o roteiro de cor. Começa com o nascer do sol visto de uma varanda em Dubai, segue com o café da manhã à beira da piscina de borda infinita, passa pelo carro esportivo estacionado de viés para sair bem na foto e termina com a legenda de sempre, de uma palavra só: gratidão. É a vida perfeita, entregue em capítulos de trinta segundos a milhões de brasileiros que assistem a tudo no intervalo do expediente, com a bateria no vermelho e a conta de luz vencida.

Em 25 de setembro, essa vida ganhou uma rachadura. O governo editou uma medida provisória que proíbe as apostas de quota fixa no país e manda tirar do ar os sites e aplicativos das bets em 6 de outubro. Perdoe o leitor a confidência, mas é o dia do meu aniversário. Quem acompanha esta coluna sabe quantas vezes escrevi contra as bets e há de entender a minha alegria: depois de tanta tinta gasta, jamais imaginei que o presente chegaria pelo Diário Oficial.

A reação veio em coro. Gente com dezenas de milhões de seguidores gravou vídeos em defesa da “liberdade”, e houve até quem comparasse a compulsão por apostas a outros vícios, o que levou um internauta a lembrar que ninguém publica link de cerveja com bônus para quem beber mais. Um dos famosos anunciou que deixaria o Brasil e, em seguida, desmentiu a si mesmo. Mas nenhum foi tão sincero quanto um ex-jogador profissional de videogame, que lamentou o momento da proibição: ela viera justamente quando ele planejava um chá revelação de R$ 300 mil. Nunca um chá revelação revelou tanto.

Há, no meio da gritaria, um argumento que merece resposta. Proibir não faz o jogo desaparecer, e as casas clandestinas, sem fiscalização nem garantias, podem ocupar o espaço deixado pelas legalizadas. O risco é real, e o Congresso, que tem 120 dias para confirmar ou derrubar a medida, fará bem em levá-lo a sério. O problema é o porta-voz. Dita por quem prosperou com as bets, a advertência lembra a raposa preocupada com a segurança do galinheiro.

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É que o negócio nunca foi apenas publicidade. No ano passado, a CPI das Bets ajudou a popularizar a expressão “cláusula da desgraça”, usada para descrever contratos em que o influenciador recebe uma fatia do que a audiência perde. Na aritmética dessas parcerias, cada derrota do fã cai como comissão no bolso do ídolo, e quem recomenda a aposta passa a torcer, em silêncio, para que ela dê errado. Alguns foram além e exibiram ganhos mirabolantes em contas de demonstração, com dinheiro de mentira fornecido pelas plataformas, enquanto a plateia apostava o de verdade. Ao prender influenciadores que divulgavam o chamado jogo do tigrinho, a polícia resumiu o método em poucas palavras: eles “iludem os seguidores com vida de luxo”. Dostoiévski perdia fortunas na roleta e escrevia para pagar as dívidas; muitos profetas do feed jogavam com fichas de brinquedo e gravavam para que os outros perdessem.

Nasci em 1967, ano em que o pensador francês Guy Debord publicou A Sociedade do Espetáculo. O espetáculo e eu temos, portanto, a mesma idade, mas só ele precisa de filtro para aparecer em público. Logo na primeira das 221 teses do livro, décadas antes de qualquer story, o autor deixou uma frase que parece feita para o Instagram: “Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação.” O paraíso exibido nas redes é isso, uma representação, e das mais caras. O iate pode ser fretado por hora; a mansão, um cenário; a felicidade, com frequência, pura encenação. Só a fatura é verdadeira, e quem a paga está do outro lado da tela.

E ela não é barata. Segundo o Comsefaz, comitê que reúne os secretários estaduais de Fazenda, as bets retiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2025, já descontados os prêmios. O Banco Central havia constatado que, só em agosto de 2024, cinco milhões de beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões para as casas de apostas. Parte daquele brilho saiu do feijão de quem assistia.

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Machado de Assis, que entendia de vaidade como poucos, ofereceu a esse mercado sua filosofia definitiva quando pôs na boca de Quincas Borba a máxima do Humanitismo: “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.” Nas bets, as batatas ficavam com a banca e com o garoto-propaganda. Ao apostador, restaram a dívida, a vergonha e, quando muito, a compaixão da família.

A internet, que não perdoa, deu o veredicto com a crueldade habitual: “Agora vão ter que trabalhar.” A piada esconde um dado incômodo. Pesquisas do próprio setor indicam que, para 41% dos criadores de conteúdo, a publicidade é o principal modelo de negócio, e que mais da metade ainda precisa de um emprego fixo. A vida perfeita, ao que tudo indica, também tinha patrocinador.

O fim das bets funcionou, afinal, como um chá revelação às avessas. Em vez de anunciar se vem menino ou menina, mostrou quem pagava a festa: o seguidor que curtia a foto em Dubai com o aluguel atrasado e a esperança, sempre renovada, de que a próxima aposta mudaria a vida. Mudava mesmo. A do influenciador.

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