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Artigo: uma carta para Alice

Por Redação Folhaonline.es

Publicado em 7 de fevereiro de 2019 às 09:37
Atualizado em 7 de fevereiro de 2019 às 09:37
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Aloisio Silva

Te ver em um leito hospitalar de UTI me fez pensar na sua história. Como não posso dialogar com você resolvi escrever essa carta. Freud diria que é um sintoma, um indício do Complexo de Édipo. Vamos lá:

A senhora teve sete filhos em parto normal e em casa. Na minha infância era assim? As mulheres pobres tinham muitos filhos e com parteiras? Como faziam quando o parto se complicava?

Como a senhora, sem ter ido a escola, educou tão bem os sete filhos, fazendo com que, todos concluíssem uma faculdade? Alguns dos seus filhos, concluíram até o mestrado e o doutorado?  Uma das suas filhas é Professora da Universidade Federal. Como conseguiu tal façanha em meio a tantas dificuldades financeiras?

Lembro-me que você lavava as roupas no Rio Muriaé. Como lavava as roupas brancas sem encardi-las? Será que alguém além de nós dois conhece essa expressão “roupa encardida”?

Tem mais coisas que gostaria de perguntar à senhora, posso? Como fazia para passar roupa com “ferro a brasa” sem que os pequeninos pedaços de carvão manchassem os ternos e vestidos de linho branco das suas patroas ricas?

Como conseguia me convencer a carregar trouxa de roupas na cabeça? Eu morria de vergonha. Tinha medo que uma garotinha me visse com aquela imensa trouxa na cabeça, mas se eu não a levasse, era a senhora quem teria de fazê-lo, achava injusto com uma mulher. Aliás, como conseguiu transferir aos seus filhos tamanho conceito de justiça?

Uma das suas filhas é presidente do Conselho dos Direitos Humanos e a outra dirige uma fundação que acolhe e fortalece mulheres e crianças vítimas de violência doméstica. Acho que é uma maneira de mudar a história daquelas mulheres e crianças.

Alice, dizem que a senhora passou fome na infância, que a vó Chica fazia chupeta de rapadura para driblar a fome dos filhos, é verdade mãe? A vó Chica era mesmo muito criativa. Será que daí vem a sua paixão por doces e consequentemente a sua diabetes, quer dizer, as nossas paixões pelos doces e, consequentemente, as diabetes?

Herdei a paixão pelos doces da senhora?

Caramba mãe, sabe o que me lembrei?

Dos maravilhosos “sonhos” com recheio de goiabada que a senhora fazia nas tardes chuvosas. Adorava os dias de chuva, porque ficava em casa e a senhora fazia os deliciosos “sonhos”. Eram realmente um sonho. Existe hábito mais mineiro?

Quando foi merendeira das escolas públicas os professores adoravam degustar os “sonhos” com goiabada, a senhora comprava os ingredientes com os próprios recursos de um pequeno salário de merendeira. Quanta generosidade! Será que herdamos a generosidade da senhora?

Mãe Alice, a senhora teve sonhos de infância?

Falando na sua infância, é verdade que começou a trabalhar ainda criança? Permitiam que crianças fizessem trabalho doméstico? Lavar, passar, cozinhar não é trabalho pesado?

Os filhos e, às vezes, os maridos das patroas te assediavam. Como uma criança se defende residindo em um pequeno cômodo na casa dos próprios assediadores?

É verdade que às vezes a senhora comia o resto dos pratos dos patrões?

Então a senhora passava fome mesmo trabalhando?

Sabe mãe, me contaram que o seu segundo nome foi em homenagem a uma das suas patroas, pois na época da sua infância, o registro civil era feito com a criança já grande. Isso é verdade?

Como é carregar um nome que não foram os seus pais quem escolheram? Que loucura.

É mãe Alice, você não é a Alice do país das maravilhas, mas é a Alice que educou, amou, cuidou, defendeu com muito afeto seu marido, filhos, filhas, netos, netas e bisneto e bisnetas, sim, já está chegando a segunda bisneta.

Mãe, tenho tantas perguntas, precisamos conversar.

De acordo com a Psicanálise, quando falamos do passado curamos nossas dores.

Vamos tomar um café? Pode ser com adoçante?

Mãe, vamos almoçar juntos? Mas olha, para nós diabéticos, só duas colheres de sopa de arroz, de preferência integral, o restante do prato, peito de frango, salada de folhas, etc.

Ou então, vamos jogar conversa fora, rir de nós mesmos, celebrar a história de uma grande mulher brasileira, como tantas outras espalhadas por um Brasil que poucos conhecem. Porém só você é a Alice. Alice que não veio do país das maravilhas, mas, a Alice que transformou a vida dos filhos e netos no país chamado Brasil, ou será Brasis?

Mãe, vamos conversar?

Aloisio Silva

Escritor

Psicanalista

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