
O atleta de Guarapari Vitor Rangel Martins, de 31 anos, foi convocado para defender a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de Futebol PC, que será realizada em Atlanta, nos Estados Unidos, entre os dias 11 e 25 de outubro. Jogador do CR Vasco da Gama, Vitor fará sua estreia em uma competição internacional desde que começou a atuar na modalidade, em 2021.
O futebol PC é praticado por atletas com paralisia cerebral ou outras condições decorrentes de lesões cerebrais, como traumatismo cranioencefálico e acidente vascular cerebral. A modalidade possui regras adaptadas do futebol convencional. As partidas são disputadas por equipes de sete jogadores, sendo um goleiro e seis jogadores de linha, em dois tempos de 30 minutos. Entre as adaptações estão a ausência da regra de impedimento e a cobrança lateral, que pode ser feita com apenas uma das mãos, rolando a bola pelo chão.
O Brasil está no Grupo B da competição, ao lado de Espanha, Chile e Austrália. A estreia da Seleção será no dia 15 de outubro, contra a Austrália. No dia seguinte, a equipe enfrenta o Chile e encerra a fase de grupos diante da Espanha, no dia 18.
Do hospital de volta aos campos

A trajetória de Vitor até a Seleção Brasileira começou muito antes de conhecer o futebol PC. Em 2017, ele estava jogando futebol quando passou mal em campo e perdeu as forças do lado direito do corpo. O episódio levou a uma internação, onde permaneceu por cerca de 60 dias e passou pela primeira cirurgia.
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Nos anos seguintes, ainda enfrentou outros procedimentos. Em 2018, precisou passar por uma nova cirurgia por causa de uma infecção no osso e, em 2019, colocou uma placa de acrílico no crânio para fechar a região que havia ficado aberta após os procedimentos anteriores.
O diagnóstico estava relacionado a um cavernoma, uma alteração vascular no cérebro. Segundo Vitor, as consequências das cirurgias fizeram com que ele precisasse reaprender movimentos básicos.


A recuperação envolveu um longo período de fisioterapia e fonoaudiologia. Aos poucos, ele voltou a caminhar e retomou atividades que faziam parte da sua vida antes do problema de saúde, entre elas o futebol.
“Voltei a fazer as coisas de que eu gostava, voltei para o futebol e para o futevôlei. Sempre me dediquei e consegui voltar a fazer tudo o que fazia antes. É sensacional”, afirmou.
Descoberta do futebol PC
Foi em 2021 que Vitor conheceu o futebol PC. Ele assistia televisão quando viu a transmissão da final do Campeonato Brasileiro da modalidade, entre Vasco e Clube do Otimismo, ambos do Rio de Janeiro.
A partir dali, procurou a organização responsável pelo futebol PC, a Associação Nacional de Desporto para Deficientes (ANDE), e recebeu a indicação de uma equipe para começar a jogar. Sua primeira competição foi pela segunda divisão, em novembro de 2021, em Blumenau, Santa Catarina.


Desde então, passou por diferentes equipes, entre elas Ativa, Mato Grosso, Clube do Otimismo e Bangu, pelo qual foi campeão carioca. Depois, chegou ao Vasco, clube pelo qual conquistou a Copa do Brasil de Futebol PC, disputada em Curitiba, em novembro do ano passado.
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“Desde 2022 eu sou convocado, mas nunca fui para uma competição internacional. Essa é a primeira vez que eu vou e a felicidade é enorme, ainda mais representar o Brasil numa Copa do Mundo”, disse.
Entre trabalho, estudos e treinamentos
A preparação para a Copa acontece paralelamente à rotina profissional e familiar. Vitor trabalha na Conami, prestadora de serviços para a Samarco, faz curso técnico em mecânica, treinar, vai a academia, além de dedicar uma parte do tempo ao filho e à família.
Para conseguir viajar aos Estados Unidos, ele também contou com o apoio da empresa onde trabalha.
“A Conami me deu a oportunidade de ir. Eles me liberaram para poder disputar esse Mundial sem descontar nada”, contou.

“Meu pai é da Seleção Brasileira”
A convocação tem um significado que vai além da conquista esportiva. Para Vitor, representar o Brasil também significa mostrar ao filho até onde foi capaz de chegar depois de ouvir que talvez nunca mais pudesse andar ou praticar o esporte que amava.
“Olhando para tudo o que eu passei; as três cirurgias na cabeça, médicos falando que eu nunca mais ia andar ou fazer o que eu mais gostava; a gente se supera, consegue dar a volta por cima e, hoje, chegar à Seleção Brasileira para representar meu país é um orgulho muito grande”, afirmou.

Agora, o jogador de Guarapari se prepara para viver o momento que começou a ser construído quando ligou a televisão e descobriu uma nova possibilidade de continuar jogando futebol.
“Hoje tenho meu filho, e uma das minhas alegrias é poder falar para ele que o pai dele está na Seleção Brasileira e vai representar o país. Disputar uma Copa do Mundo é gratificante, mas é ainda mais especial para quem já tinha ouvido que nunca mais ia voltar a fazer o que gostava e hoje está aí, jogando bola.”