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Coluna Marcelo Moryan: 2026: o ano do ódio (e a traição necessária)
Por Marcelo Moryan
Publicado em 4 de janeiro de 2026 às 15:00
Atualizado em 4 de janeiro de 2026 às 15:00
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Sou, por natureza, uma daquelas almas irritantemente otimistas. Sabe aquele tipo de pessoa que acorda achando que o mundo ainda tem jeito? Pois é. Mas convivo com um inquilino rabugento na minha própria cabeça: o realismo. Esse sujeito chato que nunca foi convidado mas se instalou mesmo assim me sopra o spoiler nada agradável do que nos aguarda.
Se você achou que já tínhamos atingido o fundo do poço na falta de civilidade, sinto informar: em 2026, vamos descobrir que o poço tem um subsolo. Com elevador e estacionamento rotativo para o ódio. Bem-vindos antecipadamente ao ano em que a barbárie finalmente tira o diploma para virar profissão.
A premissa é velha conhecida. As eleições se aproximam trazendo aquele fenômeno antropológico fascinante onde o Homo sapiens decide que os argumentos mais sofisticados disponíveis são “pau e pedra”. Esquerda contra Direita, esses dois polos magnéticos que atraem fanáticos enquanto repelem o bom senso, já estão afiando as garras. A isenção virou crime capital; a ponderação, traição. Pensar antes de gritar? Heresia
Talvez a única saída honrosa para não sermos engolidos por essa carnificina pseudo-intelectual esteja numa lição antiga, esquecida convenientemente entre um post raivoso ou outro. Aristóteles, ao ter a audácia de discordar de seu mestre Platão — imagine a ousadia —, cunhou a máxima: Amicus Plato, sed magis amica veritas. “Sou amigo de Platão, mas sou mais amigo da verdade”.
No Brasil polarizado de 2026, praticar esse princípio seria o verdadeiro ato revolucionário. Imagine o eleitor tendo a coragem de dizer: “Sou amigo da minha ideologia, adoro meu candidato, mas sou mais amigo da Realidade”. O problema é que a fidelidade canina ao “mestre” da vez nos cegou. Trocamos a verdade pela obediência. Convenhamos: cachorro obediente ganha biscoito; eleitor obediente ganha… bem, ganha a conta.
A verdade — aquela amiga inconveniente que deveríamos amar acima de tudo — não é uma abstração filosófica flutuando em alguma nuvem platônica. Ela é concreta. Mora na prateleira do supermercado, na fila de espera da creche municipal, no balcão da farmácia do posto de saúde. Quando transformamos o voto em ato de fé cega, esquecemos o óbvio: debater política deveria ser, na essência, debater o preço da comida, o acesso à educação infantil ou se haverá remédio na rede pública. Não se a camisa do político combina com a bandeira.
Enquanto gastamos nossa energia defendendo a honra de nossos “Platões” de estimação nas redes sociais — esses ídolos de barro com assessoria de imprensa —, deixamos de cobrar o que realmente importa. O fanatismo nos distrai do boleto. A briga ideológica é a cortina de fumaça perfeita para que não se discuta gestão, eficiência ou resultado. Para que falar de saneamento básico quando podemos brigar sobre qual lado da história é o correto?
Sabemos que a educação — aquela que ensina a pensar, a conectar o voto ao preço do pão — é a inimiga número um de qualquer projeto de poder. Por que criar cidadãos que amam a verdade se é muito mais fácil pastorear rebanhos que amam mitos? A ignorância não é um acidente de percurso no Brasil; é um projeto executado com excelência invejável.
Como fotógrafo ou escritor, passo a vida caçando nuances. A beleza não está no preto absoluto, nem no branco estourado; ela vive no degradê, na transição, no oásis entre a luz junto à sombra. Mas a política detesta nuances. Vende contraste máximo. Preto ou branco. Herói contra vilão. Nós contra eles. Cinza é coisa de traidor.
O final desse jogo nós já conhecemos. Enquanto as famílias se destroçam no almoço de domingo — tio contra sobrinho, pai contra filho, numa guerra civil de sobremesa —, os políticos brindam. Eles ganham eleições; nós ganhamos o direito de continuar jogando pedras uns nos outros. Que democracia linda.
Que venha 2026. Minha torcida secreta — aquela que não ouso confessar em voz alta — é para que sejamos humanos, pragmáticos. Mas, para isso, precisaremos aprender a trair nossos ídolos para sermos fiéis à nossa própria realidade.
Será que ainda sabemos fazer essa escolha? Ou já estamos confortáveis demais no subsolo do poço, esperando apenas que instalem um bar?
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As informações e/ou opiniões contidas neste artigo são de cunho pessoal e de responsabilidade do autor; além disso, não refletem, necessariamente, os posicionamentos do folhaonline.es
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