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Marcelo Moryan é Publicitário, Designer, Escritor, Fotógrafo, Artista Multimídia e tem mais de 90 prêmios nacionais e internacionais na sua carreira.

Coluna Marcelo Moryan: Quem for mais homem, cospe aqui

Por Marcelo Moryan

Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 08:27
Atualizado em 19 de fevereiro de 2026 às 08:27

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Imagem: Marcelo Moryan

Lembra daquela cena clássica do colegial? Dois caras se estranhando, a galera em volta gritando, aquele moleque esperto no meio dizendo “quem for mais homem cospe aqui na minha mão”. O cara tira a mão, o cuspe pega na cara do adversário, e pronto: dois idiotas se socando sem saber por quê, como começou, ou quem diabos armou a cilada. A humanidade amadureceu desde então?

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Claro que não.

Na semana do carnaval, a internet brasileira quase pegou fogo porque Gabriel David, presidente da Liesa, teria dito que “não há mulher tão relevante no Brasil como Virgínia” — a influenciadora digital escolhida para ser rainha de bateria da Grande Rio. Pronto. Foi o que bastou. As redes viraram um campo de batalha: de um lado, os defensores da tradição sambista vomitando indignação; do outro, os fãs da moça bradando sobre machismo e elitismo. Xingamentos, memes, textões inflamados. A fogueira estava acesa.

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Só tinha um probleminha: ninguém leu a matéria.

Porque se tivessem lido — e sei que é pedir demais numa era em que 280 caracteres já cansam —, teriam visto que o homem disse: “Talvez não tenha nenhuma mulher tão relevante midiaticamente nesse momento no Brasil como a Virgínia”.

Midiaticamente.

Uma palavrinha. Sete sílabas. Que muda absolutamente TUDO.

É a diferença entre “Pelé é o melhor do mundo” e “Pelé é o melhor do mundo no xadrez”. Entre “você é um gênio” e “você é um gênio quando se trata de estragar as coisas”. A omissão estratégica de um advérbio transforma verdade em clickbait, contexto em caos, jornalismo em isca de clique.

E Gabriel David até tem razão, convenhamos. Pode não agradar e doer no ego de muita gente, mas midiaticamente — naquele sentido sujo, mercadológico, quantificável em seguidores e engajamento — a moça é, sim, relevante. Gostemos ou não, vivemos numa época em que relevância se mede em visualizações, não em substância. É a nossa realidade distópica, mas é a realidade.

Mas o título não quis saber de nuances. Cortou o “midiaticamente”, jogou a frase nua e crua para a multidão faminta, e assistiu ao show de horrores. Porque jornalista sabe — e torcedor de Flamengo também — que o povo não lê. Quanto mais absurda a manchete, mais cliques. Quanto mais indignação gratuita, mais engajamento. Quanto mais gente espumando de raiva sem contexto, mais lucro.

E nós? Ah, nós adoramos.

Adoramos ser enganados – pegar a faca antes de abrir o texto. Destruir reputações por causas que mal entendemos, xingar gente que nunca vimos na vida. Somos ratazanas correndo atrás do queijo na armadilha, e ainda achamos que estamos sendo revolucionários.

E sabe o pior? Isso é só o aquecimento.

2026 está aí, minha gente. Ano eleitoral. E se você achou que uma manchete sobre rainha de bateria causou estrago, prepare-se. Vem aí uma enxurrada de títulos rasos, frases cortadas, contextos suprimidos, verdades pela metade e mentiras inteiras. Vai ter gente pegando no chicote com muito prazer, açoitando o ar, achando que está defendendo a democracia — sem perceber que está apenas espancando a própria burrice.

Vão te jogar a isca. Você vai morder. Vão te empurrar para o confronto. Você vai entrar de cabeça. E no final, quando a poeira baixar, vai perceber que foi mais um idiota cuspindo na própria cara.

Existe esperança? Alguma chance de que, coletivamente, evoluamos além desse ciclo patético? De que aprendamos a ler além do título, a pensar antes de reagir, a questionar antes de compartilhar?

Dostoiévski, observando os prisioneiros da Sibéria, percebeu algo que transcende épocas e geografias. Em Memórias da Casa dos Mortos, ele nos deu a resposta há mais de 150 anos:

“A sofrer nos acostumamos.”

Nos acostumamos ao engano – a entrar em conflitos vazios – ser a galera do colegial assistindo à briga, a mão que segura o cuspe, e os dois palhaços que se socam sem saber por quê.

E continuaremos assim. Porque ler cansa. Pensar dói. E é tão mais fácil, tão mais prazeroso, simplesmente cuspir.

A mão já está estendida.

Até a próxima.

E a próxima.

E a próxima.

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As informações e/ou opiniões contidas neste artigo são de cunho pessoal e de responsabilidade do autor; além disso, não refletem, necessariamente, os posicionamentos do folhaonline.es

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