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Coluna Marcelo Moryan: LUT8 — Celebrar o quê?
Por Marcelo Moryan
Publicado em 8 de março de 2026 às 15:00
Atualizado em 8 de março de 2026 às 15:00
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Hoje é 8 de março.
Poderia ser o dia de catalogar conquistas. De mapear, com rigor e honestidade, o quanto a representatividade feminina avançou — e para onde ainda precisa ir. Uma data de balanço real, não de fachada.
O mercado antecipou-se à reflexão. Transmutou o marco histórico forjado em greves, mortes e no sangue de operárias que tombaram pelo simples direito de existir — e o devolveu sob a forma de buquês, campanhas de desconto e publicações cor-de-rosa repletas de autoajuda sem risco. Romantizou o sofrimento para revendê-lo embrulhado na mesma embalagem. O mercado maquiou a servidão. Amarrou um laço magenta nas correntes.
Eu me recuso a festejar.
A consciência de uma nação não brota de slogans. Ela emerge da legislação — executada, imposta, levada às últimas consequências.
Enquanto escrevo, o sistema de justiça brasileiro apodrece em rixas internas, absorto em vaidades de toga — interesses alheios à equidade, crises que as mulheres não geraram e não deveriam custear.
Nesse mesmo intervalo, uma vítima violentada por seis indivíduos teve seu pedido de urgência negado por um plantonista. Magistrados e parlamentares consumidos pelas próprias crises, a ponto de um estupro coletivo perder o status de emergência.
E enquanto isso: em 2024, 79.741 estupros foram registrados no Brasil — recorde histórico, uma vítima a cada seis minutos. No ano seguinte, 2025, 1.568 feminicídios, alta de 4,7%, o maior número da última década — e 13,1% dessas mulheres assassinadas já tinham medida protetiva ativa. Quatro mortas por dia. O Estado sabia. Assinou o papel. E deixou acontecer. A ONU contabiliza 50 mil assassinadas globalmente por parceiros ou familiares no mesmo período — uma a cada dez minutos.
Se ler isso não provoca asco, a falha não é do texto.
Em janeiro de 2026, o Talibã promulgou um estatuto penal inédito.
O documento criminaliza a violência doméstica somente quando há cortes, fraturas ou hematomas visíveis. Se a esposa conseguir comprovar a agressão perante um tribunal — obstáculo por si só intransponível — o agressor arrisca quinze dias de cárcere. Para abuso sexual matrimonial, inexiste previsão punitiva; mas para maus-tratos a um cachorro: cinco meses de detenção. O animal possui maior blindagem jurídica que a cônjuge. A redação oficial adota os termos “mestre” e “escrava”. Clero e elite recebem advertências; a base da pirâmide leva chicotadas — trinta e nove, distribuídas pelo corpo para não concentrar cicatrizes.
“Bárbaros”, você conclui.
Então responda: em quantas nações uma cidadã espancada alcança condenação legítima e célere?
Em que proporção de inquéritos a dúvida ainda recai sobre: “O que ela aprontou?”
O Afeganistão não inventou a misoginia. Teve a audácia perversa de documentá-la.
Um espelho tão perturbador que a maioria prefere não se olhar.
E quando uma mulher rompe o cerco, escala posições, domina o ofício com uma competência que constrange os medíocres — o sistema reserva a ela um último veneno, desta vez embrulhado em elogio: “Para uma mulher, você é impressionante.” Como se a excelência dela precisasse de asterisco. Como se o talento exigisse legenda. A frase não é um cumprimento — é uma concessão. E toda concessão pressupõe uma hierarquia que o interlocutor nunca questionou.
Sempre me recusei a esse teatro.
O que o mercado vende como aliança masculina é, em geral, gestão de imagem — não transformação de conduta. Performar sensibilidade não tem custo; abdicar do privilégio, tem. E é exatamente no custo real que o verniz descasca. Vitrine não tem consciência, tem iluminação estratégica.
Não é virtude que se exibe estar à altura das mulheres que me cercam — a que me gerou, a que me educou, a que trabalha ao meu lado e que o mundo insiste em sufocar. É obrigação de quem não abdicou da própria consciência. E cumpre-se em silêncio, todo dia, quando o custo é real.
Isso mudará algum dia?
Resposta sem ilusão: talvez, daqui a algumas décadas, seja possível comemorar genuinamente. Isso demandará extinguir a crença de que o homem não chora, mas tem permissão para agredir. Exigirá, acima de tudo, que eduquemos nossas crianças — os garotos, sobretudo — a encarar o que existe, nomeá-lo sem conforto e recusá-lo sem negociação. Até que o planeta deixe de ser um imenso Afeganistão velado.
Quando esse alvorecer chegar, brindarei.
Hoje, jamais.
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