Anúncio

Marcelo Moryan é Publicitário, Designer, Escritor, Fotógrafo, Artista Multimídia e tem mais de 90 prêmios nacionais e internacionais na sua carreira.

Coluna Marcelo Moryan: LUT8 — Celebrar o quê?

Por Marcelo Moryan

Publicado em 8 de março de 2026 às 15:00
Atualizado em 8 de março de 2026 às 15:00

Anúncio

WhatsApp Image 2026 03 06 at 11.54.49
Imagem: Marcelo Moryan

Hoje é 8 de março.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Poderia ser o dia de catalogar conquistas. De mapear, com rigor e honestidade, o quanto a representatividade feminina avançou — e para onde ainda precisa ir. Uma data de balanço real, não de fachada.

O mercado antecipou-se à reflexão. Transmutou o marco histórico forjado em greves, mortes e no sangue de operárias que tombaram pelo simples direito de existir — e o devolveu sob a forma de buquês, campanhas de desconto e publicações cor-de-rosa repletas de autoajuda sem risco. Romantizou o sofrimento para revendê-lo embrulhado na mesma embalagem. O mercado maquiou a servidão. Amarrou um laço magenta nas correntes.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Eu me recuso a festejar.

A consciência de uma nação não brota de slogans. Ela emerge da legislação — executada, imposta, levada às últimas consequências.

Enquanto escrevo, o sistema de justiça brasileiro apodrece em rixas internas, absorto em vaidades de toga — interesses alheios à equidade, crises que as mulheres não geraram e não deveriam custear.

Nesse mesmo intervalo, uma vítima violentada por seis indivíduos teve seu pedido de urgência negado por um plantonista. Magistrados e parlamentares consumidos pelas próprias crises, a ponto de um estupro coletivo perder o status de emergência.

E enquanto isso: em 2024, 79.741 estupros foram registrados no Brasil — recorde histórico, uma vítima a cada seis minutos. No ano seguinte, 2025, 1.568 feminicídios, alta de 4,7%, o maior número da última década — e 13,1% dessas mulheres assassinadas já tinham medida protetiva ativa. Quatro mortas por dia. O Estado sabia. Assinou o papel. E deixou acontecer. A ONU contabiliza 50 mil assassinadas globalmente por parceiros ou familiares no mesmo período — uma a cada dez minutos.

Se ler isso não provoca asco, a falha não é do texto.

Em janeiro de 2026, o Talibã promulgou um estatuto penal inédito.

O documento criminaliza a violência doméstica somente quando há cortes, fraturas ou hematomas visíveis. Se a esposa conseguir comprovar a agressão perante um tribunal — obstáculo por si só intransponível — o agressor arrisca quinze dias de cárcere. Para abuso sexual matrimonial, inexiste previsão punitiva; mas para maus-tratos a um cachorro: cinco meses de detenção. O animal possui maior blindagem jurídica que a cônjuge. A redação oficial adota os termos “mestre” e “escrava”. Clero e elite recebem advertências; a base da pirâmide leva chicotadas — trinta e nove, distribuídas pelo corpo para não concentrar cicatrizes.

“Bárbaros”, você conclui.

Então responda: em quantas nações uma cidadã espancada alcança condenação legítima e célere?

Em que proporção de inquéritos a dúvida ainda recai sobre: “O que ela aprontou?”

O Afeganistão não inventou a misoginia. Teve a audácia perversa de documentá-la.

Um espelho tão perturbador que a maioria prefere não se olhar.

E quando uma mulher rompe o cerco, escala posições, domina o ofício com uma competência que constrange os medíocres — o sistema reserva a ela um último veneno, desta vez embrulhado em elogio: “Para uma mulher, você é impressionante.” Como se a excelência dela precisasse de asterisco. Como se o talento exigisse legenda. A frase não é um cumprimento — é uma concessão. E toda concessão pressupõe uma hierarquia que o interlocutor nunca questionou.

Sempre me recusei a esse teatro.

O que o mercado vende como aliança masculina é, em geral, gestão de imagem — não transformação de conduta. Performar sensibilidade não tem custo; abdicar do privilégio, tem. E é exatamente no custo real que o verniz descasca. Vitrine não tem consciência, tem iluminação estratégica.

Não é virtude que se exibe estar à altura das mulheres que me cercam — a que me gerou, a que me educou, a que trabalha ao meu lado e que o mundo insiste em sufocar. É obrigação de quem não abdicou da própria consciência. E cumpre-se em silêncio, todo dia, quando o custo é real.

Isso mudará algum dia?

Resposta sem ilusão: talvez, daqui a algumas décadas, seja possível comemorar genuinamente. Isso demandará extinguir a crença de que o homem não chora, mas tem permissão para agredir. Exigirá, acima de tudo, que eduquemos nossas crianças — os garotos, sobretudo — a encarar o que existe, nomeá-lo sem conforto e recusá-lo sem negociação. Até que o planeta deixe de ser um imenso Afeganistão velado.

Quando esse alvorecer chegar, brindarei.

Hoje, jamais.

Mais de Marcelo Moryan

WhatsApp Image 2026-03-06 sat 11.54.49

Coluna Marcelo Moryan: LUT8 — Celebrar o quê?

WhatsApp Image 2026-02-27 at 13.31.46

Coluna Marcelo Moryan: Os pais esqueceram o “Não” — e os “epsteins” agradecem

WhatsApp Image 2026-02-20 at 14.s1.27

Coluna Marcelo Moryan: O gabinete de vidro: e se você fosse o prefeito?

Ilustração.jpg - Copia

Coluna Marcelo Moryan: Quem for mais homem, cospe aqui

As informações e/ou opiniões contidas neste artigo são de cunho pessoal e de responsabilidade do autor; além disso, não refletem, necessariamente, os posicionamentos do folhaonline.es

Anúncio

Anúncio

Veja também

rsw_1280

Projeto vai coletar resíduos e preservar a biodiversidade marinha em Guarapari

Foto-capa-Samu

Aplicativo “192 Fácil” promete agilizar acionamento do SAMU no ES

Nova ferramenta digital permite enviar localização automática e dados da ocorrência à Central de Regulação

Anúncio

Anúncio

emprego-app-carteira-de-trabalho

Procurando emprego? Sine de Anchieta tem mais de 70 vagas nesta segunda (9)

Interessados podem buscar atendimento, na Casa do Cidadão, no Centro de Anchieta das 8h às 17h

Avatar-Abdalla-

Coluna Palavra de Fé: Você não precisa lutar todas as guerras

Anúncio

Rembrandt exposição (5)

ES recebe exposição de arte gratuita com obras do holandês Rembrandt

Mostra internacional fica aberta ao público até 12 de abril, com entrada gratuita

panrotas

Guarapari participa de fórum nacional para acompanhar as demandas do turismo

Realizado pela Panrotas, o evento é considerado um dos principais do setor no Brasil

Anúncio