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Coluna Marcelo Moryan: Os pais esqueceram o “Não” — e os “epsteins” agradecem
Por Marcelo Moryan
Publicado em 1 de março de 2026 às 15:00
Atualizado em 1 de março de 2026 às 15:00
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Há 22 anos, uma mulher de Santa Rosa, interior do Rio Grande do Sul, recusou 300 mil dólares. Sem nenhuma assessoria jurídica, relatório de inteligência ou informação privilegiada sobre redes de tráfico internacional. Bárbara Fekete sentiu um incômodo — daquele que se instala no estômago e resiste a qualquer nome — e disse não.
Ponto final.
Do outro lado da proposta estava Jean-Luc Brunel, braço direito de Jeffrey Epstein — o homem que agências federais de vários países perseguiram por décadas sem conseguir detê-lo a tempo.
Uma mãe do interior parou.
A ironia seria cômica — se não fosse trágica.
O psicólogo Donald Winnicott já avisava: “A criança precisa de um ambiente suficientemente bom — não perfeito. Um adulto que nunca frustra não prepara. Paralisa.”
Construímos, nas últimas décadas, uma pedagogia generosa nas intenções e descuidada nas consequências: a ideia de que frustrar é traumatizar, que negar é rejeitar, que autoridade rima com autoritarismo. Boa parte das famílias de hoje quer, acima de tudo, ser amiga de quem criou.
O resultado é uma geração educada na permissividade — e despreparada para um mundo que não retribui a gentileza.
Predadores entendem isso com precisão cirúrgica. Chegam como oportunidade, não como ameaça. Abrem as portas que a família fechou e vendem liberdade onde havia limite.
Quem cresceu num ambiente onde a negativa é exceção e a aprovação incondicional é a principal moeda de afeto não reconhece armadilha. Reconhece amor.
Os “epsteins” da vida sempre agradecem pelo SIM que deveria ser NÃO.
A pergunta inevitável: se uma mulher sem recursos protegeu a filha apenas com uma recusa bem sustentada, para que serviu o aparato internacional de segurança que falhou em tantos outros casos?
Serviu de pouco. O problema começa antes de qualquer agência federal — começa quando um adulto decide que educar é nunca contrariar.
Proteger é ser o responsável quando todo mundo prefere ser colega. É manter a posição diante do choro, da acusação, do “você é o pior pai do mundo” — confiante de que o abraço de alívio virá mais tarde, quando a criança entender do que foi salva.
Gláucia entendeu. Aos 38 anos, revisitando tudo que aconteceu naquele verão, ela resume com quatro palavras o que nenhum dossiê de inteligência conseguiu fazer: “Minha mãe me salvou.”
Não se trata de transformar a casa num quartel. Trata-se de presença e conversa — de criar alguém capaz de ouvir uma negativa sem interpretá-la como abandono, com disposição para questionar o estranho que oferece tudo que faltou em casa.
Enquanto as famílias competem para parecer modernas e compreensivas, alguém mais paciente observa, anota e aguarda. Sabe que quem foi criado sem fronteiras vai, mais cedo ou mais tarde, procurar alguém que as ofereça. E quando isso acontecer, estará lá — sorrindo, de braços abertos, com uma proposta irrecusável.
Surpresos, os pais vão se perguntar onde erraram.
Erraram antes. Trocaram a proteção pela paz temporária do jantar sem choro. Esqueceram que a palavra mais poderosa de quem educa não custa nada — quando vem de uma relação inteira de pé.
Uma sílaba:
Não.
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