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Coluna Marcelo Moryan: Show do IPTU – ingressos exclusivos
Por Marcelo Moryan
Publicado em 14 de janeiro de 2026 às 09:13
Atualizado em 14 de janeiro de 2026 às 09:13
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Janeiro em Guarapari é uma entidade mitológica. O balneário, que vive de abraçar o turista e vender o sol, entra em ebulição. Temos festivais de música, queima de fogos e a tradicional sinfonia de buzinas nos engarrafamentos. Mas há um evento à parte, com ingressos exclusivos, reservado apenas aos nativos que, como eu, teimam em amar este paraíso há três décadas. Refiro-me ao grande espetáculo da temporada: o Show do IPTU.
O “convite VIP” chega pontualmente, brilhando na tela ou na caixa de correio. Este ano o couvert artístico veio com um aumento real de Muitos “%” (no meu caso 20%). Não é pouca coisa. Mas, vejam vocês, o brasileiro é um espécime curioso: ele não se importa de arcar com o bilhete, desde que a apresentação valha a pena. Eu desembolsaria o dobro sorrindo, se o palco não estivesse desabando sob nossos pés.
A ironia fina de residir na Praia do Morro é que o carnê do tributo sugere que habitamos uma metrópole de serviços suíços, mas basta tirar o veículo da garagem para participar de uma simulação involuntária de hipismo. Tentar dirigir em linha reta aqui não é condução, é trote. O automóvel não desliza; ele galopa.
O pavimento de Guarapari deixou de ser uma via pública para se tornar uma instalação artística de patchwork. É uma colcha de retalhos geológica, onde a manta asfáltica original virou lenda urbana, tal qual a Mula sem Cabeça. Criaram até uma nova modalidade de engenharia: o “asfalto passarela”. O centro da pista recebe uma maquiagem de piche novo, enquanto as laterais permanecem na sua glória desnivelada, criando degraus que desafiam a suspensão e a sanidade do motorista.
Fico imaginando o arqueólogo do futuro tentando entender o que existe no subsolo dessa crosta. Com as tubulações de gás e água dançando um minueto perigoso lá embaixo, recapear essa “lasanha viária” será trabalho para heróis ou loucos. E nem precisamos de tempestades bíblicas; qualquer chuva passageira já basta para transformar a orla num sistema de lagos intermitentes. Pagamos imposto de Riviera Francesa e recebemos infraestrutura de pântano.
Não me interpretem mal. Esta não é uma crítica solitária à gestão atual, mas ao “consórcio do desacerto” que impera há anos. Nossa cidade sofre de uma doença crônica administrativa: a descontinuidade. O consórcio que precisamos não é o da troca de acusações, mas o do planejamento. Precisamos pensar a cidade a longo prazo, num projeto de Estado e não de governo, onde o futuro de Guarapari seja maior que os egos de quem senta na cadeira.
Olhem para o Mercado de Peixe, iniciado na gestão passada. A promessa era um marco arquitetônico; a realidade caminha para ser um “puxadinho” de luxo. Alguns dirão que o prefeito anterior não tinha planejamento. Concordo plenamente. Mas não estamos repetindo esse mesmo argumento há décadas, num revezamento infinito onde um culpa o outro? É nesse ciclo vicioso que moram as obras de Buenos Aires: estão lá, mal acabadas, flertando com o status de sítio arqueológico moderno.
Existe uma falácia que contam sobre nós, o povo: dizem que odiamos pagar tributos. Mentira. O que detestamos é o estelionato da expectativa. Ninguém gosta de jogar moedas numa fonte seca.
Querem a “Prova dos 9”? Reúnam dez cidadãos de Vitória, dez de Vila Velha e uma dezena daqui. Perguntem, numa escala de zero a dez, qual é a satisfação em quitar o IPTU. A resposta de Guarapari não seria um número, seria um suspiro cansado.
No fim das contas, continuamos financiando a entrada mais cara do verão para assistir à mesma peça de sempre: a promessa do paraíso encenada num cenário que pede socorro. Se cada boleto que paguei nas últimas três décadas tivesse resolvido um único problema, hoje eu viveria em Zurique.
Mas, por enquanto, sigo aqui, desviando das crateras e AMANDO minha terra, esperando o dia em que o retorno do investimento seja tão real quanto o sol que nos ilumina. Até lá, segurem-se nos estribos. O rodeio continua.
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As informações e/ou opiniões contidas neste artigo são de cunho pessoal e de responsabilidade do autor; além disso, não refletem, necessariamente, os posicionamentos do folhaonline.es
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