
Há vinhos que se bebem e outros que se leem, e o El Enemigo pertence à segunda espécie. Seus criadores, em Mendoza, deram-lhe um nome de guerra para recordar que o pior adversário não está do outro lado da trincheira, mas dentro de nós, e se chama medo. Não por acaso, o emblema da casa mostra um homem diante de um dragão. Desconfio, porém, que ambos sejam a mesma criatura, e por isso ouso uma tradução mais pessoal e bem menos confortável: “Eu, o Inimigo”.
Hoje, ao completar 59 anos, resgato esta foto da recente viagem à Argentina, em que brindo com esse vinho no solo que o viu nascer, porque nenhuma imagem resumiria melhor o ciclo que agora começa.
Sou, por natureza e por trajetória, um conciliador, o que, nesta época árida, chega a parecer excentricidade: o mundo transformou a polarização em vício e o próximo em alvo. Sempre que esbarro nessa sanha, lembro-me de Goya, que, velho, surdo e desencantado com uma Espanha partida ao meio, pintou nas paredes de sua casa o Duelo a garrotazos: dois homens que trocam pauladas, atolados até os joelhos, condenados a não fugir. Por muito tempo, atribuiu-se ao artista essa sentença, até que radiografias desfizeram o equívoco: no original, os combatentes lutavam de pé, livres sobre a relva. Quem lhes enterrou as pernas foi o restaurador que, meio século depois, transferiu a obra do muro para a tela.
Quando lecionei filosofia da arte no Pará, contei esse episódio a muitas turmas como simples curiosidade técnica. Só a idade me fez ver que nele está a lição mais perturbadora do quadro: aqueles contendores podiam ir embora a qualquer momento, mas escolheram ficar; a imobilidade é um acréscimo tardio, feito por mãos alheias, como quem retoca a cena para que o ódio pareça destino. Repetimos, todos os dias, o gesto do restaurador quando enterramos as próprias pernas na lama da discórdia e juramos que não há saída. Por isso, a quem faz questão de me ter como rival, respondo como a maturidade me ensinou: puxo uma cadeira, sento-me e ergo a taça para beber com o inimigo.
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O mestre aragonês, aliás, não esperou o desfecho do duelo: em 1824, trocou a pátria pelo exílio e foi viver seus últimos anos em Bordeaux, terra do Cabernet Franc, que, do outro lado do oceano, se tornaria a casta-símbolo do El Enemigo. Há nisso uma rima da história que me comove: o rótulo fala a língua do pintor, e a cepa tem raízes na região que o acolheu. No mesmo cálice, a Espanha empresta o nome, a França dá a uva, os Andes oferecem o chão, e ninguém precisa derrotar ninguém.
A única conquista que importa é outra, e Platão a definiu em As Leis: “vencer a si mesmo é a primeira e a melhor de todas as vitórias”. Às portas dos sessenta, compreendo enfim o alcance dessa frase: nenhuma guerra merece ser travada, senão a interior, contra o medo, a pressa e a vaidade de ter sempre razão.
Que este novo ano me encontre fiel à vocação do diálogo, desarmando conflitos por onde eu passar e vencendo, uma a uma, as minhas batalhas íntimas, com a elegância que só o tempo sabe conceder.