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Em misto de tristeza e conformidade, famílias são despejadas em São Gabriel

Por Livia Rangel

Publicado em 16 de setembro de 2015 às 16:53
Atualizado em 11 de novembro de 2015 às 10:44

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“Ordem da justiça não se discute, mas para onde é que a gente vai? Aqui, em casa, somos dois velhos, estamos doentes, não temos mais onde ficar. Se não for pela providência de Deus, quem sabe como vamos sobreviver”. Esse relato veio de um franzino senhor de 75 anos, morador até o começo da manhã desta quarta (16), de um pequeno barraco na região conhecida como “Pica Pau”, em São Gabriel.

Desprovido da visão de um olho, com glaucoma no outro e sendo a única fonte de sustento para a companheira, Dona Maria do Carmo do Nascimento, 64 anos, seu Marivaldo Pinheiro de Souza, 75, tenta encontrar forças para saber o que vai fazer daqui para frente.

“Minha esposa tem vários problemas de saúde, é hipertensa, tem problemas no joelho, não consegue andar, nem trabalhar. Só eu recebo aposentadoria. Com os R$ 650,00 eu pago os remédios que a gente não consegue do governo, os meus e dela e a previdência para ela. Às vezes sobra uns R$ 20,00, R$ 40,00 pro resto do mês”, afirma.

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Seu Marivaldo e Dona Maria do Carmo: sozinhos, eles não tem parentes próximos ou outro lugar para morar.

Além de seu Marivaldo e dona Maria, mais 40 famílias vivem a mesma situação. Por meio de decisão judicial (reveja o caso aqui), eles tiveram que sair das casas que habitavam de maneira improvisada em favor do proprietário legal do terreno de 16 mil metros quadrados: a empresa GTA Empreendimentos. Edificações de alvenaria são poucas e mesmo assim quase sem acabamento. Destino certo apenas para os poucos móveis retirados de lá. A maioria das pessoas, por sua vez, não tem onde ficar. Só de crianças, são mais de 100.

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Policiais do Choque acompanharam a desocupação, que ocorreu sem conflitos.

Apesar do adiamento anunciado na semana passada de que as famílias teriam até o dia 9 de outubro para resolverem onde ir, a Justiça voltou atrás e, na véspera, decidiu pela desocupação imediata da área no primeiro prazo estabelecido: 16 de setembro. A notícia começou a se espalhar na região logo no começo da noite e por volta das 8h da manhã, representantes das Varas de Defesa Agrária e Moradia e de Direitos Humanos da Defensoria Pública Estadual já estavam no bairro para dar orientações aos moradores.

“Na semana anterior quando estivemos aqui, conseguimos em acordo verbal um novo adiamento, mas a juíza responsável não aceitou a petição do Defensor Público Municipal. Estamos aqui para ver se tudo correrá na normalidade e também pegar informações para talvez pedir anulação em favor de algum desses moradores”, disse a defensora da Vara de Defesa Agrária e Moradia, Maria Gabriela Agapito.

Conformidade e tristeza. Na operação, foram deslocados cerca de 40 policiais, entre militares, do BME, civis e soldados do Corpo de Bombeiros que acompanharam os trabalhos dos oficiais de justiça. Três caminhões baú faziam o transporte da mobília. Logo no começo, um senhor ateou fogo no seu barraco, como símbolo de revolta. Porém, não houve conflitos. Um misto de conformidade e tristeza predominava no local.

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Um senhor ateou fogo no próprio barraco em sinal de revolta.

“Eu estou indignada porque na Prefeitura falaram que dariam um cheque para a gente poder sair daqui e alugar uma casa. Nunca vi uma decisão sair tão rápido assim, eu não sei o que fazer. O cheque, estão dizendo que vai demorar ainda a chegar, mas e nós? E essas crianças aqui? Se eu tivesse outro lugar para morar ou dinheiro não estaria nessa situação. Eles só estão interessados nos móveis que eles vão levar para algum lugar. E a gente e as pessoas? Precisamos de um lugar para ficar. Os móveis, a gente deixa aqui, pode pegar chuva, pode acabar. Mas as crianças? Eu estou falando de seres humanos!”, desabafou Ana Paula Felix dos Santos, 36 anos.

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Da cor da esperança, bandeira mostrava tudo o que os moradores não tinham naquele momento.

Ana Paula faz parte de uma das três famílias que aceitaram a proposta de pagamento do aluguel social pela Setac. Na semana passada, durante reunião com representantes da Procuradoria Municipal e da Defensoria Pública foi apresentada a alternativa da prefeitura de Guarapari, que era ou pagar o aluguel social por um ano ou a passagem de volta para suas cidades natais. Não havia representantes da Setac na operação, apenas dois Conselheiros Tutelares enviados para verificar a situação das crianças.

Em nome da GTA Empreendimentos, o procurador da empresa, Pedro de Almeida, acompanhava tudo de perto. Segundo ele, a decisão pelo despejo das famílias não foi repentina.

“Fizemos tudo de acordo com a lei. Na verdade, essas pessoas deveriam ter saído desde o dia 27 de agosto, mas entramos em acordo e adiamos para hoje. Nós até cedemos demais, mas só três famílias quiseram o aluguel social. O resto falou que pagaria para ver. O resultado esta aí”, afirmou.

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