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Marcelo Moryan
Coluna Marcelo Moryan

Marcelo Moryan é publicitário, designer, escritor, fotógrafo e artista multimídia, reconhecido por uma produção que combina precisão técnica, poesia visual e olhar crítico sobre o cotidiano.

Coluna Marcelo Moryan

Estou preocupado com a minha tanga do Gabeira

Por Redação Folhaonline.es
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Foto: Marcelo Moryan

Guardo um segredo que pode me custar o casamento, a reputação e, a depender das urnas, a liberdade: aos cinquenta e nove anos, teço uma tanga de crochê que pretendo vestir em praia pública. O crime acontece à noite, no sofá da sala, ao lado da minha esposa, que acompanha com ternura o vaivém da agulha, convencida de que dali sairá um porta-copos. Foi ela quem me ensinou o ofício, sem desconfiar de que armava o inimigo dentro de casa, e é ela também quem, sempre que me vê diante do teclado, me lança aquele olhar atravessado de quem seria capaz de arrancar o roteador da tomada e decreta, com a severidade de uma censora doméstica: “Sem comentários políticos, por favor.”

Meu crochê, que fique claro, não é capricho de velho, e sim fruto de uma promessa que virou angústia íntima, anatômica e têxtil. Quando tinha cinquenta e cinco anos, em um surto de otimismo metabólico que beirava o delírio, firmei com o espelho um pacto mais sério que qualquer jura de candidato: no dia em que completasse sessenta, eu despontaria na areia, trincado e de uma magreza insolente, a bordo de uma autêntica tanga do Gabeira. A versão original, diga-se, nem pertencia a quem a tornou célebre; tinha sido emprestada por uma prima dele, a jornalista Leda Nagle. Eu, zeloso da autoria, decidi que a minha seria artesanal e caseira. O relógio, esse burocrata implacável, avisa que a data fatídica chega em outubro do ano que vem, e até lá a peça terá de sobreviver a duas ameaças: a balança e a eleição.

A balança, por enquanto, vence com folga: o projeto do abdômen heroico sofre sucessivas revisões de cronograma, como toda obra de governo que se preze. Com isso, a confecção enfrenta um contratempo digno da Odisseia. Penélope, no poema de Homero, tecia de dia e desmanchava à noite a mortalha do sogro para enrolar os pretendentes. Também eu desfaço de madrugada o que avancei no sofá, mas por motivo menos nobre: a cada moqueca com pirão, o molde sobe um número. No ritmo atual, a tanga acabará promovida a bermuda; ainda assim, não desisto, porque cada laçada é um ponto a favor da liberdade.

A eleição é a ameaça mais grave, pois não se resolve com dieta; é por ela que a política, intrusa incontornável, arromba a porta. O candidato que aparece à frente nas pesquisas, por um fio (e de fio, agora, eu entendo), pertence àquele coro estridente de gente que não dá conta da própria vida, mas se julga habilitada a administrar a dos outros. A moda da estação é a cruzada moralista, a patrulha obsessiva do corpo alheio. Dias atrás, a presidente do Peru, Keiko Fujimori, afinadíssima com esse repertório, anunciou que as escolas públicas do país vão proibir maquiagem, unhas pintadas e cabelos masculinos “excessivamente longos ou tingidos”, além de exigir saias de comprimento adequado. Ninguém informou quantos centímetros separam a madeixa virtuosa da subversiva; presume-se que a pedagogia peruana, doravante, se faça com fita métrica. Ora, se o rabo de cavalo de um estudante e o esmalte de uma colegial já tiram o sono do Estado, o que fará essa turma com um sexagenário a passear pela orla, as vergonhas guardadas por um frágil emaranhado de linha?

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“Vergonhas”, aliás, é palavra que consta da nossa certidão de nascimento. Em 1500, Pero Vaz de Caminha informou ao rei de Portugal que os habitantes desta costa andavam “sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas”, e o escrivão de Cabral, em vez de chamar a guarda, achou tudo de uma inocência encantadora. Quase cinco séculos depois, em 1979, recém-chegado de um exílio de nove anos, Fernando Gabeira exibiu em Ipanema a tanguinha de crochê que escandalizou as mentes empedernidas da Zona Sul. Aquilo nunca foi apenas um retalho escasso; era um manifesto que trazia em suas tramas a anistia, o fim dos anos de chumbo e o respiro de uma sociedade que, depois de tanta farda e tanta censura, ensaiava voltar a ser plural, solar e dona das próprias pernas.

Se as forças do extremismo vencerem, meu desfile da próxima primavera deixará de ser lazer e virará caso de polícia. Serei cercado pelo esquadrão da moral e dos bons costumes antes mesmo de estender a canga na Praia do Morro, e meu artesanato será classificado como armamento subversivo e atentado ao pudor ideológico. Posso até ver o sargento, prancheta em punho, a me dirigir a pergunta que dá título ao livro mais famoso do meu ilustre antecessor de Ipanema: “O que é isso, companheiro?”

Portanto, meu amor, quando você ler este texto e descobrir que aquilo não é um porta-copos, não me condene. Juro que, se escrevo sobre política, não é para contrariá-la; luto apenas pelo meu sagrado, inalienável e constitucional direito de ser um senhor levemente fora de forma a caminhar em direção ao mar, livre e coberto por quase nada de algodão. Afinal, se a nossa democracia não tiver firmeza para segurar uma tanga de crochê, já não serve para mais nada.

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