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Marcelo Moryan
Coluna Marcelo Moryan

Marcelo Moryan é publicitário, designer, escritor, fotógrafo e artista multimídia, reconhecido por uma produção que combina precisão técnica, poesia visual e olhar crítico sobre o cotidiano.

Coluna Marcelo Moryan

O Salvador da Pátria

Por Redação Folhaonline.es
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Ilustração: Marcelo Moryan

Carregamos o fardo de buscar um messias de aluguel — e o fazemos com devoção litúrgica. Na tribuna do parlamento, no altar do templo, no consultório de jaleco impecável ou nas tramas da vida afetiva, o roteiro se repete, inexorável: primeiro entronizamos o ídolo sob promessas de redenção absoluta; depois, quando a realidade cobra a fatura com juros, vestimos a toga de inquisidor e saímos à caça de um Judas para malhar em praça pública. Raras vezes se percebe o detalhe constrangedor: algoz e salvador nutrem-se da mesma seiva, e a mão que apedreja é a mesma que aplaudiu — ainda morna de entusiasmo.

Esse vício coletivo tem nome antigo e dono ilustre. No século XVI, Étienne de La Boétie chamou-o de servidão voluntária, tese incômoda justamente por nos retirar do papel de vítimas: a dominação não repousa sobre a força bruta do tirano, mas sobre a permissão tácita dos que a ele se submetem. O demagogo de palanque, o líder espiritual que confunde púlpito com trono e o parceiro que administra a insegurança alheia não ascendem a seus postos por geração espontânea: encontram uma demanda psíquica voraz por tutela e a atendem com presteza. Nenhum poder se sustenta sem um joelho disposto a dobrar-se.

Convém ser honesto sobre a causa: transferir ao outro a chave da emancipação é o mais confortável dos mecanismos de defesa. Admitir a leniência que garantiu o altar ao vigário corrupto custa mais do que culpá-lo; encarar o medo da solidão que nos fez aceitar o inaceitável pesa mais do que responsabilizar o parceiro pelos escombros da relação. Delegamos a consciência pelo alívio de nos vermos livres da faxina, sem examinar a sujeira acumulada sob os móveis. Ao fim do espetáculo, o bode expiatório que apedrejamos ostenta a nossa própria face — e o espelho, ao contrário do cadafalso, não deixa cicatriz visível, o que o torna ainda mais insuportável.

Vale notar o requinte perverso do arranjo: o salvador de hoje é o traidor de amanhã, e nós, que o ungimos, reservamos o direito de julgá-lo sem jamais subirmos ao banco dos réus. A indústria da redenção — política, espiritual ou afetiva — vive precisamente dessa alternância: fabrica deuses e ergue guilhotinas com o mesmo esmero, lucrando nas duas pontas da encenação.

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Um mundo isento de injustiças e perfeitamente coerente continuará sendo miragem — e nunca faltará quem venda o mapa. O que se pode exigir do presente é algo mais modesto e infinitamente mais árduo: o fim da infantilidade cívica e emocional, a recusa radical de terceirizar o próprio juízo. Enquanto houver quem espere pelo herói, haverá quem se prontifique a ocupar-lhe o trono — e a cobrar caro pelo serviço. A verdadeira transformação começa no instante em que renunciamos à espera e assumimos o encargo, pesado e intransferível, de governar a própria vida.

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