
Uma discussão termina, a voz baixa e cada um volta aos seus afazeres. Mesmo assim, uma frase continua ecoando na cabeça de quem a ouviu. Quem falou talvez nem se lembre exatamente do que disse; quem foi atingido consegue repetir cada palavra. Dizer que foi apenas raiva explica a origem da ofensa, porém não apaga o efeito. Pedir perdão é indispensável. Esquecer, contudo, não obedece a uma ordem. Certas frases ocupam durante anos um espaço que nunca deveriam ter recebido.
O celular tornou esse problema ainda mais sério. Sozinhos diante de uma tela, escrevemos como se estivéssemos falando somente com uma pessoa e esquecemos a facilidade com que uma mensagem muda de endereço. Um áudio enviado para desabafar chega a outro grupo. A captura de tela preserva a publicação que já foi apagada. A irritação responsável por aquela mensagem dura poucos minutos; o registro continua circulando. Muita gente se arrepende do conteúdo quando percebe o alcance, e não quando reconhece a injustiça. Esse é um ponto delicado. O cuidado com o que dizemos deveria existir mesmo se ninguém jamais descobrisse a autoria. Tudo começa no instante em que escolhemos o que fazer com uma informação, uma suspeita ou uma mágoa.
Tiago comparou a língua a uma pequena fagulha capaz de incendiar uma grande floresta (Tiago 3.5). A comparação dispensa exageros. Uma reputação construída durante décadas pode ser ferida por uma insinuação repetida sem verificação. A verdade também pode ser manipulada quando alguém omite parte da história ou retira uma frase do contexto. Até a sinceridade pode servir à crueldade. A expressão “eu só falei a verdade” muitas vezes funciona como desculpa para quem descarregou o que sentia e deixou outra pessoa carregando o peso.
Prudência no falar pode ser aprendida. Antes de enviar uma mensagem dura, vale relê-la imaginando o próprio nome no lugar do destinatário. Se uma correção precisa ser feita, uma conversa direta costuma ser mais honesta do que reunir uma plateia. Informação ainda não confirmada não deve ganhar velocidade por meio de nós. E, quando errarmos, o pedido de perdão precisa vir sem aquela conhecida frase: “se você se sentiu ofendido”. Quem ofendeu deve assumir o verbo. Também cabe corrigir a história diante de quem recebeu a versão errada. Escolher melhor o tom, o momento e o destinatário é uma forma de respeito. Depois que uma frase deixa a nossa boca, seu caminho já não obedece às nossas mãos.
Anúncio