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Marcelo Moryan
Coluna Marcelo Moryan

Marcelo Moryan é publicitário, designer, escritor, fotógrafo e artista multimídia, reconhecido por uma produção que combina precisão técnica, poesia visual e olhar crítico sobre o cotidiano.

Coluna Marcelo Moryan

Você absolveria William?

Por Redação Folhaonline.es
David with the Head of Goliath Cc
Foto: Caravaggi – Davi com a cabeça de Golias

A justiça, conforme nos ensinam os manuais de Direito, é cega. No entanto, nas esquinas de Vitória, a suspeita é de que a venda nos olhos da Dama não serve para garantir a imparcialidade, mas para que ela não precise encarar o abismo de sua própria seletividade. Quando o sangue de Dante Michelini tingiu o solo de Guarapari entre os dias 19 e 20 de janeiro de 2026, o Brasil não sentiu apenas o choque da barbárie; sentiu o estranho e incômodo conforto de uma fatura que, após décadas de juros morais, foi finalmente liquidada no balcão de um sítio.

Dante Michelini, acusado de crimes que a justiça nunca puniu adequadamente, foi encontrado sem a cabeça — um corpo carbonizado que se tornou uma metáfora literal: a decapitação de um símbolo. Para muitos, o ato não foi lido como um homicídio, mas como um exercício de “jardinagem social” — a extirpação necessária de um tronco podre que a lei se recusou a podar. A pergunta que agora circula, entre o escárnio digital e a sede de revanche, é de uma simplicidade perigosa: você teria a coragem de absolver William?

É fascinante notar como a figura de William Santos Monzoli deixou de ser a de um réu comum para se tornar o braço armado de um acerto de contas tardio com o fantasma da menina Araceli. Em 1973, a justiça foi enterrada sob o peso de sobrenomes e influências — a impunidade de quem tinha poder para comprar silêncio; em 2026, ela ressurge sob a forma de um desmembramento. O que incomoda a consciência pública não é a culpa do carrasco, mas a percepção de que, em um país onde o privilégio é o melhor álibi, a lei só é implacável com quem não tem um brasão para protegê-lo. William não é apenas um homem; é o sintoma de uma sociedade que, exausta da impunidade aristocrática, resolveu terceirizar seu veredito ao fio da lâmina.

Absolver William seria, talvez, o último suspiro de uma sociedade que finalmente admite sua própria impotência — e a impotência de suas instituições. Seria reconhecer que, quando o Estado falha em sua função de conter o poder intocável, o cidadão comum acaba por improvisar o tribunal na rua, na lâmina, na vingança. O verdadeiro crime não reside apenas na cena do sítio, mas no sistema que nos obriga a escolher entre o impune e o carrasco, deixando a lei como um adereço inútil, empoeirado. Estamos diante de uma “justiça de compensação”: onde falta a toga, sobra o facão.

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Caravaggio, em sua pintura “Davi com a Cabeça de Golias”, capturou essa mesma ambiguidade moral que hoje nos assombra. No quadro, Davi não exibe triunfo — exibe melancolia. E há um detalhe perturbador: o rosto decapitado de Golias é um autorretrato do próprio Caravaggio. O pintor se vê como o vencido, carregando a culpa existencial de quem empunha a lâmina. Mas há outra leitura possível: talvez Davi não soubesse que matava Golias. Talvez o tempo, a história e a justiça tenham convergido naquele golpe, transformando um ato cometido na escuridão em um acerto de contas com o passado. William não sabia quem era Dante quando o matou — mas Dante carregava uma dívida com a justiça que o próprio tempo quis cobrar. A melancolia de Davi não é culpa; é o peso de descobrir, tarde demais, que a lâmina encontrou seu verdadeiro alvo.

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Se a justiça deseja realmente recuperar sua visão, deveria começar a decapitar — legalmente, entenda-se — os privilégios que mantêm este país de joelhos. Enquanto os “Dantes” de colarinho branco caminharem com suas cabeças erguidas e protegidas pelo silêncio cúmplice, o povo continuará a olhar para o William da vez não como um criminoso, mas como o único juiz que, por um breve e sangrento instante, não foi cego.

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Como bem resumiu Friedrich Nietzsche: “A justiça é a vingança que se tornou civilizada”. O problema é que, quando a civilização falha, a vingança retoma sua forma original, fisiológica e bruta. Ninguém deveria se surpreender quando a lâmina brilha no lugar onde a lei apagou. Onde a instituição morre, o mito do justiceiro nasce das cinzas — e a cabeça de Dante é o preço de uma paz social que nunca foi pactuada, apenas imposta pelo silêncio dos poderosos.

Você absolveria William? Eu? Se você me conhece, não fique triste com minha resposta: SIM, ABSOLVERIA — estou farto de ter esperança na justiça.

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