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Marcelo Moryan
Coluna Marcelo Moryan

Marcelo Moryan é publicitário, designer, escritor, fotógrafo e artista multimídia, reconhecido por uma produção que combina precisão técnica, poesia visual e olhar crítico sobre o cotidiano.

Coluna Marcelo Moryan

Uma pergunta incômoda para Vini Jr.

Por Redação Folhaonline.es
coluna marcelo moryan
Ilustração: Marcelo Moryan

Sempre compartilhei da luta de Vini Jr. Defendi cada episódio de racismo nos estádios e os silenciamentos que ele transformou em grito. Nomear o racismo como sistema que tritura corpos negros não é hipérbole — é diagnóstico. Mas há uma segunda engrenagem funcionando enquanto a primeira tenta pará-lo, e nela Vini Jr. não silencia: colabora. A diferença entre as duas é que uma tenta triturá-lo, e a outra o contratou para ajudar a moer os outros.

No Brasil de 2026, as apostas online são a principal causa de endividamento das famílias — passaram o cartão, o cheque especial, todos os fantasmas do orçamento doméstico. São 25 milhões de brasileiros, metade já com danos financeiros graves. R$ 30 bilhões por mês. Por trás de cada real, uma casa perdida, um pequeno comércio que faliu, um suicídio que não entra nas estatísticas oficiais, mas está nos boletins de ocorrência pelo país.

Vini Jr. aprendeu na pele o que é ser alvo de um sistema que lucra com sua anulação. A pergunta que não quer calar é outra: ele saberia reconhecer o que é ser engrenagem de uma máquina que fatura com a anulação alheia? Porque há diferença entre ser alvo e ser vitrine, e ele ocupa os dois lugares — num deles não é vítima, é anúncio.

Mbappé recusou as bets. Disse não, blindou o nome. Não é santo — tem seus próprios demônios. Mas, neste único episódio, fez o que Vini Jr. não fez: recusou. Um negou milhões de euros. O outro aceitou, sabe-se lá por qual quantia. O valor é irrelevante. O que importa é que um soube onde terminava o próprio rosto e onde começava o produto. O outro ainda acredita que sua imagem é só um rosto — que não carrega o peso do que anuncia.

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Em 2026, a Betnacional criou o Vini Sênior — uma versão envelhecida do jogador que ensina o país a apostar “com responsabilidade”. Três filmes de trinta segundos em que ele, maquiado de velho, explica a importância de definir limites e saber parar. “A gente quer que o pessoal se divirta com equilíbrio”, disse. A medicina chama a arquitetura do vício que as bets vendem de ludopatia — dependência reconhecida pela OMS com a mesma mecânica neurológica da cocaína. O Vini Sênior prega responsabilidade num produto que funciona como droga. É como pedir a um dependente químico que use crack com moderação. O jovem que perde o salário vê o ídolo maquiado de velho dizendo “defina limites”. Define os limites. Depois da terceira aposta frustrada, abre outro aplicativo. É o mesmo Vini, o idêntico algoritmo — o mesmo Vini Sênior que, se entrasse no jogo de verdade, perderia a maquiagem e a pose em meia hora.

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Quem coleciona os lances do ídolo no Instagram e abre o aplicativo no escuro do quarto não distingue o drible do anúncio — é tudo Vini Jr. E o que ele ensina fora de campo é que perder dinheiro é coisa de gente madura, de quem joga “como sênior”. Mas quem entra nessa furada está sendo devorado pelo mesmo algoritmo que o ídolo anuncia, e nem sabe.

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Vini Jr. não lerá este texto. Não sentará para explicar a contradição que milhões de brasileiros veem todo dia quando abrem o aplicativo e encontram seu rosto ao lado do algoritmo que suga o dinheiro da semana. Não por maldade — por contrato. A escolha ativa, num país onde a ludopatia já é um câncer silencioso que não poupa classe, cor nem idade, tem nome: conivência remunerada.

Ele lutou para ser símbolo de superação. Conseguiu. A batalha agora é saber se o nome dele vai servir para levantar alguém ou para enterrar. Vini Jr., que aprendeu a gritar contra uma injustiça, hoje é pago para filmar comerciais sobre como lubrificar a máquina que mói os outros.

E o fã, no quarto escuro, acha que o ídolo está em silêncio. Não está. Está trabalhando.

O sistema não precisa de capuz. Dispensa estádio e xingamento para operar. Ele está na tela de quem aposta o salário, no contrato do ídolo, no dinheiro que some do bolso de quem já não tem nada. E quem está lendo este texto — com Vini Jr. estampado na tela entre uma leitura e outra — continua assistindo. A máquina não veio para calar ninguém: veio para cobrar. E enquanto houver um rosto bonito para empurrar a próxima rodada, ela continuará cobrando. O “infeliz apostador” sangra sentado. O ídolo posa em pé. E o algoritmo, indiferente, roda.

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