
Há uma violência silenciosa que muitos homens aprendem a praticar ainda na infância — e contra si mesmos: a mutilação da própria alma. Ensina-se cedo que ser homem exige erguer uma muralha, engolir o choro, deportar a delicadeza e encarar o mundo pela fresta estreita da rigidez. O que ninguém avisa, e pelo que se cobra caro depois, é que aquilo que se bane não desaparece: apodrece no porão e volta anos mais tarde, travestido de amargura, ruído e violência.
A ideia me ocorreu de supetão, nas ruas elétricas de Ciudad del Este, no Paraguai, a caminho de Assunção. Num shopping da cidade, diante da fotografia de uma modelo em pose estudadamente sensual, resolvi imitá-la — meio lúdico, meio estético, inteiramente sem cerimônia. Meu filho me olhou e soltou o sorriso cúmplice de sempre: “Ah, pai, eu sabia.” Devolvi a brincadeira, como faço sempre. Mas, por trás da pilhéria, havia algo mais fundo: aquilo era defesa. O reflexo de quem ainda acredita que a delicadeza não tem visto de entrada no território masculino, como se a suavidade fosse patrimônio exclusivo do feminino.
A cena, miúda, resume o que sempre fui: um homem que chora sem pedir licença, que se entrega à escrita e a poemas que só nascem quando a alma transborda.
Foi ali, entre uma vitrine e outra, que entendi com mais nitidez que orientação sexual e essência humana moram em prateleiras distintas — e nem sequer na mesma estante. Ser gay não torna ninguém mais delicado, assim como ser hétero não torna ninguém mais bruto; a orientação simplesmente não responde a essa pergunta. Ela nunca respondeu. Quem insiste em usá-la como termômetro de virilidade está medindo a temperatura com uma régua — e, pior, cobrando de todo mundo o mesmo pedágio: do menino que aprende a não chorar e do homem que aprende a não ser visto.
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A distinção assusta os espíritos rasos. Vivemos sob um preconceito estrutural que confunde sensibilidade com fraqueza e acolhimento com orientação. O homem que ignora ou reprime o próprio lado receptivo e intuitivo — o que a psicologia profunda chama de anima — vive em estado de alerta permanente, sentinela de uma fronteira que ninguém pretende invadir. Teme a própria vulnerabilidade como quem teme um vírus capaz de dissolver sua identidade.
O resultado dessa recusa está nas esquinas, nos discursos raivosos, na intolerância de balcão e na brutalidade de todo dia. Homens incapazes de acolher a própria fragilidade tornam-se figuras barulhentas. Precisam gritar porque temem que, no silêncio, se ouça o eco: a armadura está vazia.
Daí o mais elegante dos paradoxos. Ao tentar provar a si mesmos e ao mundo uma masculinidade bélica e inabalável, acabam agredindo o próprio espelho. Cada preconceito lançado para fora é um soco desferido contra o reflexo que evitam encarar às sete da manhã, na hora de fazer a barba.
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Imitar uma pose num shopping paraguaio, rir com o filho, registrar a própria suavidade — ou simplesmente permitir-se senti-la — é ato de suprema coragem. Não é um passo rumo a “menos homem”, mas a mais humano. É a coragem de olhar no espelho, em Ciudad del Este ou em qualquer outro canto do mundo, reconhecer todas as faces que nos habitam e concluir que a inteireza vale mais do que qualquer personagem que o mundo nos convida, com tanta insistência, a interpretar.