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Marcelo Moryan
Coluna Marcelo Moryan

Marcelo Moryan é publicitário, designer, escritor, fotógrafo e artista multimídia, reconhecido por uma produção que combina precisão técnica, poesia visual e olhar crítico sobre o cotidiano.

Coluna Marcelo Moryan

Classe inútil? Eu discordo de Yuval Noah Harari

Por Redação Folhaonline.es
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Ilustração: Marcelo Moryan

Nunca foi tão fácil produzir, e nunca foi tão necessário pensar.

Li Homo Deus primeiro. Depois fui para 21 Lições para o Século 21. Queria entender de onde Harari tirava o peso da sua profecia. O que encontrei não foi um argumento — foi uma pista que o próprio autor deixou escapar sem perceber.

Harari diz que a inteligência artificial vai criar uma “classe inútil” de homens e mulheres economicamente redundantes, e que a única saída para o tédio existencial dessa multidão seria um “sentido artificial” — jogos, drogas digitais, experiências de realidade virtual que ocupem o vácuo deixado pela ausência de propósito real. A saída é tão sombria quanto o diagnóstico. Mas, ao enunciá-la, ele entrega, sem querer, o furo na sua própria tese.

Percorri as páginas dos dois livros com a sensação de que algo não se encaixava. Até que a peça caiu: esse tal de “sentido artificial” que o autor trata como uma invenção do futuro — uma espécie de entorpecente high-tech para os descartados do capitalismo digital — não é nenhuma novidade. É a mais velha das práticas humanas vestindo roupa nova. O que ele chama de sentido artificial é, no fundo, uma transmutação de cenários.

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Nós sempre fomos contaminados por sentidos artificiais. Sempre. As narrativas que atravessam a história humana — mitos, religiões, ideologias, nacionalismos, consumismo, fama, produtividade — são, todas elas, arquiteturas de significado construídas para dar coesão ao que, por natureza, não tem nenhuma. O homem paleolítico que pintava bisões na parede da caverna estava criando o mesmo tipo de construção simbólica. O camponês medieval que via a mão de Deus na colheita perdida, o operário do século XIX que se identificava com a pátria, o consumidor do século XX que comprava felicidade em parcelas — todos operavam dentro do mesmo mecanismo. A “contaminação” jamais deixou de estar lá. A diferença é que antes chamávamos de cultura, de fé, de pertencimento. Agora chamamos de algoritmo.

Harari acerta ao detectar o fenômeno. Erra ao tratá-lo como uma anomalia do futuro. Essa arquitetura de significado não é uma muleta que a tecnologia vai nos impor — é o tecido do qual sempre foi feita a nossa relação com o real. O que muda é o invólucro. Antes era o mito, o rito, o livro sagrado. Depois foi a bandeira, a revolução, o mercado. Agora são os pixels, as métricas de engajamento, os mundos imersivos. O frasco muda. O veneno — ou o remédio, depende do ponto de vista — é o mesmo.

O historiador olhou para a inteligência artificial e viu o fim da utilidade humana. O que ele não percebeu é que a utilidade nunca foi o verdadeiro motor do homem. O que nos move não é a função econômica — é a necessidade de pertencer a uma história maior que a nossa própria vida. E isso, que ele chama de “sentido artificial” como quem aponta um perigo iminente, é nada mais do que a condição humana desde que o primeiro homem olhou para o céu e perguntou: por quê?

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A IA não vai nos tornar inúteis. Vai nos obrigar a encarar, sem a anestesia do trabalho repetitivo, a pergunta que teimosamente evitamos: para que você serve quando não pode mais apenas obedecer?

A classe inútil não vai existir. O que está com os dias contados é o pensamento raso — o pânico moral disfarçado de futurologia — não as pessoas que ele insiste em enterrar antes da hora. Mas isso Harari já devia saber desde muito antes de escrever a primeira linha.

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