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Marcelo Moryan
Coluna Marcelo Moryan

Marcelo Moryan é publicitário, designer, escritor, fotógrafo e artista multimídia, reconhecido por uma produção que combina precisão técnica, poesia visual e olhar crítico sobre o cotidiano.

Coluna Marcelo Moryan

Fotografia sem memória

Por Redação Folhaonline.es
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Ilustração: Marcelo Moryan

Esta é a coluna mais longa que já escrevi. Você não vai saber o tamanho dela — e não por culpa minha. É que você nunca entrou no site. Nunca leu uma coluna inteira, do primeiro ao último parágrafo, com aquela paciência antiga de quem senta e vai até o fim. O que você lê de mim são dois parágrafos sobre um fundo branco, recortados e postados no Instagram por alguém da redação com bom gosto e pouco tempo. E é sobre esses dois parágrafos que você opina, com admirável segurança, na caixa de comentários. Já fui chamado de brilhante e de reacionário na mesma semana, por leitores que leram exatamente os mesmos parágrafos — os únicos que existiam.

Não é uma queixa. É o tema. Porque o que aconteceu com esta coluna é o que aconteceu com tudo o que já foi memória: virou fragmento, virou imagem, virou algo que se consome em movimento e se esquece antes de o semáforo abrir. Se você chegou até aqui, já está fazendo algo estatisticamente improvável. Aguente mais um pouco. O assunto é justamente esse.

Havia uma época em que uma família inteira cabia em dois álbuns de capa dura. Trinta e seis poses por rolo, e a certeza cruel de que três sairiam tremidas. Fotografar era um ato de fé: apertava-se o botão sem saber o resultado, esperavam-se duas semanas pela revelação, e o que voltava do laboratório era quase sempre uma decepção — o olho fechado, o dedo no canto, a tia deslocada do quadro. E, no entanto, todos aqueles retratos mal-ajambrados sobreviveram. Estão ali, no fundo do armário, guardados por alguém. Enquanto isso, você tem nove mil fotos no celular e não faz a menor ideia do que fez em março.

Este é o paradoxo da nossa época visual: nunca se fotografou tanto, nunca se lembrou tão pouco. Produzimos, por ano, mais imagens do que toda a humanidade produziu no século XX inteiro — e o resultado dessa avalanche é um esquecimento de proporções inéditas. Não um esquecimento por escassez, como o das civilizações que perderam seus arquivos em incêndios e saques, mas o contrário: um esquecimento por excesso. Enterramos a memória sob a própria memória.

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Susan Sontag diagnosticou o problema antes mesmo de o celular existir. Em Sobre fotografia, observou que fotografar é uma forma de participação simulada — o turista que fotografa o templo não está no templo, está atrás de uma lente, adiando a experiência para um futuro que nunca chega. A câmera, dizia ela, é uma maneira de recusar a experiência ao transformá-la em imagem. Sontag escrevia sobre pessoas com uma Kodak a tiracolo. Imagine o que diria diante de um estádio inteiro que assiste ao show através de retângulos luminosos erguidos acima das cabeças.

Porque é isso que fazemos agora. Não olhamos: registramos. O pôr do sol não é mais contemplado, é capturado. O filho não sopra a vela para nós, sopra para a tela. O clique virou um tique — reflexo nervoso da mão, não decisão do olhar. E cada vez que trocamos a atenção pelo registro, fazemos uma aposta implícita: a de que veremos aquilo depois, com calma, num futuro hipotético e desocupado. Todos sabemos que esse futuro não existe. Continuamos a apostar.

O problema não é a quantidade em si. É que a memória, para funcionar, exige aquilo que a abundância tornou impossível: a escolha. Lembrar não é armazenar — é selecionar. Toda memória humana é um trabalho de edição: guardamos o essencial, apagamos o ruído, e o tempo se encarrega de reescrever o resto com aquela generosidade seletiva que chamamos de nostalgia. O álbum de capa dura era memória justamente porque alguém, numa tarde qualquer, sentou-se à mesa e decidiu o que merecia uma página. O rolo de câmera infinito aboliu esse gesto. Sem curadoria, não há lembrança. Há depósito.

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E depósito, convenhamos, é o que temos. Nossas fotos não vivem em álbuns, vivem em nuvens — palavra encantadora escolhida por um marqueteiro genial para descrever um galpão refrigerado em Iowa, cheio de servidores que zumbem a três graus. É ali que dormem os seus aniversários. Ninguém vai visitá-los. A maior parte dessas imagens não será revista jamais, nem por você, nem pelos seus herdeiros, que um dia herdarão uma senha e não saberão o que fazer com ela. Chamamos isso de arquivo. É mais honesto chamar de cemitério — com a agravante de que cemitério, ao menos, a gente visita no Dia de Finados.

Fala-se muito, em defesa da abundância, que a fotografia se democratizou. É verdade, e é uma conquista real: o retrato deixou de ser privilégio de quem podia pagar por ele. Mas democratizar o acesso não é o mesmo que democratizar o sentido. Multiplicar imagens não multiplicou memória, do mesmo modo que multiplicar palavras nunca multiplicou pensamento. O valor de uma fotografia sempre veio de sua raridade — não a raridade econômica, mas a do instante. Cartier-Bresson passou a vida atrás daquilo que chamou de instante decisivo: o centésimo de segundo em que a forma e o significado coincidem. Hoje disparamos quarenta quadros por segundo em modo rajada e deixamos o software escolher. Terceirizamos o instante decisivo para um algoritmo de detecção de sorriso. Ele decide melhor, provavelmente. Só não decide por nós.

Aí está o nó, e ele é mais desconfortável do que parece. Não fotografamos demais por medo de esquecer. Fotografamos demais porque já paramos de confiar em nós mesmos para lembrar. Delegamos à nuvem uma função que era da mente, e a mente — como todo músculo dispensado do serviço — atrofiou com a elegância silenciosa de quem foi aposentado cedo demais. Platão, no Fedro, fez Sócrates contar uma fábula egípcia em que um rei recusa o presente da escrita com esse mesmo argumento: ela produziria homens que parecem saber muito e não sabem nada, porque confiaram no que está fora deles. Soa a resmungo de velho. Dois mil e quatrocentos anos depois, o velho continua sem resposta.

Talvez o mais revelador seja o que fotografamos. Não o extraordinário — o extraordinário é raro, e a raridade é precisamente o que abolimos. Fotografamos o prato. O recibo. A vaga do estacionamento, para não esquecer onde paramos. A fotografia, que nasceu como tentativa de vencer a morte, terminou como bloco de notas. Niépce esperou horas com uma placa de betume na janela para fixar os telhados diante de sua casa; nós esperamos meio segundo para fixar a senha do Wi-Fi. É um progresso técnico deslumbrante e uma humilhação metafísica considerável.

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Não proponho que ninguém jogue fora o celular — seria simpático, inútil e francamente hipócrita: esta coluna foi escrita por alguém cuja profissão é apontar lentes para o mundo. Proponho algo menos heroico e mais difícil: imprimir uma foto por mês. Uma só. Escolher entre novecentas a única que merece existir no espaço físico, pagar por ela, pendurá-la em algum lugar onde seus olhos tropecem nela sem querer. O gesto é ridículo em escala, e é exatamente por isso que funciona. Escolher uma é admitir que as outras oitocentas e noventa e nove não eram memória — eram ruído em alta resolução.

Porque, no fim das contas, a pergunta não é quantas fotos você tem. É quantas você seria capaz de descrever de olhos fechados.

Passei trinta anos aprendendo a olhar. Minha avó não aprendeu nada disso e sabia descrever, de olhos fechados, as onze fotografias que tinha. Eu tenho trezentas mil e preciso abrir o computador para me lembrar do meu próprio casamento.

E você, que chegou até aqui, acaba de fazer algo que não fazia há anos: terminar alguma coisa. Guarde essa lembrança. Não fotografe.

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