
O Brasil perdeu para a Noruega. E, claro, a culpa recai sobre a arbitragem, o gramado, o vento, a má sorte ou qualquer outra entidade mística que habite o imaginário do torcedor brasileiro. Mas, se tirarmos a venda e encararmos a realidade, a derrota foi o atestado de óbito de uma era: a do ‘talento que se basta’.
Enquanto o Brasil entrava em campo carregando o peso da história e o ego dos ‘parças’, a Noruega surgiu como uma planilha de ciência aplicada em formato humano. Erling Haaland, que parece ter sido construído em um laboratório de alta tecnologia, não joga futebol; ele executa um processo científico. Enquanto nossos craques se preocupam com o post de ostentação pós-jogo ou com a casa de shows que receberá o elenco, o norueguês monitora a resposta metabólica de cada fibra muscular para garantir que, aos 90 minutos, ele ainda tenha o mesmo oxigênio do início.
É a ciência contra o improviso. E, acreditem: a ciência sempre supera o improviso quando este está de ressaca.
Não é coincidência que o topo da artilharia desta Copa, com 7 gols cada, seja ocupado por uma trindade de atletas que elevaram o profissionalismo a um dogma: Lionel Messi, Kylian Mbappé e Erling Haaland. Eles são mais que goleadores; são projetos de longevidade. Transformaram o futebol em uma religião monástica, onde o corpo é tratado como uma empresa de capital aberto cujo maior acionista é a performance pura.
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Enquanto o brasileiro ainda acredita que o talento nasce do ‘dom’ e se sustenta no churrasco, esses três tratam o descanso, a nutrição e o rigor físico como as engrenagens de um motor de Fórmula 1.
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Neymar, o maior ícone dessa cultura, é o exemplo perfeito do que deu errado. Enquanto o país chora mais uma eliminação precoce, o jogador — que encerra sua trajetória em quatro Copas sem levantar um único troféu — pode, ao menos, se consolar com suas novas horas livres. Afinal, agora terá tempo de sobra para curtir o seu relógio de 5 milhões de reais, comprado nos Estados Unidos enquanto o resto da Seleção tentava descobrir como se joga futebol. Quando a bola sobra para o Haaland, ele não discute com o goleiro, não faz biquinho e certamente não usa o tempo de folga para ostentar joias; ele executa a tarefa com a precisão de um protocolo clínico. É chato? Talvez. É eficaz? Absolutamente.
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A nossa ‘disciplina’ brasileira é flexível, calorosa e adora um improviso. O problema é que o futebol de 2026 não quer saber de ‘magia’ desregrada. Ele quer resistência, oxigenação cerebral monitorada por dados e atletas que entendam que a vida noturna é o maior inimigo da finalização perfeita.
Perdemos porque, no placar da elite mundial, o pagode não conta gols. Mas, para o nosso futebol, parece que ele ainda vale mais que o treino.
No fim das contas, a única coisa que nos restou foi agradecer a Alisson. Com a eficiência que a nossa seleção mostrou no domingo, não deveríamos estar lamentando a eliminação; deveríamos estar agradecendo ao nosso goleiro por não ter deixado o placar repetir aquele trauma de 2014. Pelo menos dessa vez, o 7 a 1 foi evitado — o que, para o nível atual da nossa ‘disciplina’, já pode ser considerado um título mundial.