
Caro Ministro,
Em maio de 1969, escrevi duas coisas na mesma folha de papel. Primeiro, que eu não tinha feito nada de errado. Depois, que estava renunciando ao meu cargo na Suprema Corte dos Estados Unidos.
Parece contradição. Não é. É a coisa mais simples do mundo, e eu levei tempo demais para entender: ser inocente basta para um réu. Para um juiz, não. Réu se defende. Juiz não pode nem precisar se defender.
Meu escândalo, visto de hoje, até dá dó de pequeno. Eu recebia vinte mil dólares por ano da fundação de um financista encrencado. Vinte mil. Devolvi o dinheiro. Não adiantou nada. O que me derrubou foi uma linha no contrato dizendo que aquilo era para o resto da vida — e para a minha mulher, se eu morresse antes. O contrato estava numa gaveta. Foi preciso que o Departamento de Justiça fosse lá abrir a gaveta.
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No seu caso, ninguém precisou abrir gaveta nenhuma. É essa a novidade do século, Ministro: hoje o papel guarda o nome de quem mexeu nele.
Li o que a Polícia Federal juntou. Um contrato de cento e trinta e um milhões entre o escritório da sua mulher e o banco do Vorcaro. O próprio arquivo registra que a última edição teria sido feita por um usuário chamado “Ministro Alexandre de Moraes”. Um cartão de trezentos mil para cada filho. Cotas de jatinho e de helicóptero. O banqueiro dizendo que devia ao senhor uma dívida de vida. E uma listinha com os nomes dos policiais que o investigavam, mandada assim, de passagem.
A polícia faz questão de dizer que não está acusando ninguém de crime, e faz bem: falta muito a apurar, e o senhor tem direito a essa apuração até o fim. Não vim condenar. Vim avisar que isso não me salvou e também não vai salvá-lo.
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Porque o escritório da sua mulher, o Barci de Moraes, explica que está tudo dentro da lei, já que o senhor nunca julgou causa do banco. Pode até estar. Mas experimente ouvir a frase como ela chega na padaria: o banqueiro preso pedia socorro ao ministro e pagava cento e trinta e um milhões ao escritório da mulher do ministro. Uma frase não precisa ser injusta para acabar com o senhor.
Há uma diferença entre nós, e ela não é a seu favor. O meu dinheiro vinha em meu nome, o que deixava tudo fácil de julgar. Dinheiro que dá a volta pela família é mais difícil de nomear. É essa dificuldade que hoje protege o senhor. Não a confunda com inocência.
Sobre a torcida, um aviso de quem já esteve na arquibancada errada. Fui defendido pelos meus votos e atacado pelos meus votos. Do contrato, quase ninguém falou. Meus inimigos queriam a minha cadeira, meus amigos queriam salvar o tribunal, e, no meio disso, a pergunta que importava — se eu tinha agido certo — simplesmente sumiu. O senhor vai conhecer essa solidão: ser absolvido por quem não leu e condenado por quem não leu. É pior do que a acusação.
E sim: se o senhor sair, quem vai comemorar é justamente quem menos merece. Comigo foi assim. Minha renúncia caiu de presente no colo de Nixon, que queria a minha vaga, e no colo dos senadores que me detestavam não pelo contrato, mas pelo que eu havia votado. Saí do mesmo jeito. Um juiz não fica na cadeira só para contrariar os inimigos — quem faz isso já entregou aos inimigos o poder de decidir onde se senta.
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Termino com o conselho que me deram e que eu achei uma grosseria. Hugo Black, meu colega, foi o primeiro a me procurar: saia, para proteger a Corte. Hoje sei que ele estava sendo gentil. Era a última porta que eu ainda podia abrir sozinho. Depois dela, tudo o que me aconteceu foi decidido por outros.
O senhor ainda tem essa porta. É o único ponto desta história em que o senhor ainda é o juiz.
Abe Fortas
Abe Fortas (1910-1982) foi juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos entre 1965 e 1969. Renunciou em 14 de maio de 1969, depois de vir a público que recebia um pagamento vitalício de 20 mil dólares anuais da fundação do financista Louis Wolfson, então investigado e mais tarde condenado por fraude em valores mobiliários. Fortas devolveu o dinheiro, negou até o fim qualquer irregularidade e foi o primeiro juiz da Suprema Corte americana a deixar o cargo sob ameaça de impeachment. Esta carta é uma ficção; os episódios da vida de Fortas são reais. As informações sobre o caso brasileiro reproduzem o relatório da Polícia Federal cujo sigilo foi levantado pelo ministro André Mendonça em 1º de setembro de 2026, que não imputa crime aos citados e cuja apuração segue em curso. O escritório Barci de Moraes sustenta que a contratação foi lícita.