
Que bela época para se viver no Espírito Santo, onde o ar puro da serra inconfundível e a maresia do mar impecável se misturam ao aroma de quase um bilhão de reais evaporando como fumaça de fogos de artifício.
O mercado financeiro — esse templo sagrado da meritocracia onde o dinheiro de quem trabalha duro vai parar na conta de quem sonha alto, muito alto, de preferência em iates ancorados em Mônaco — sempre soube disfarçar fé em matemática.
Por anos, o capixaba orgulhoso olhou para a sua elite financeira e bateu palmas. Afinal, por que guardar dinheiro na caderneta da avó se você podia entregar as economias à rapaziada de terno slim da Apex Partners e ganhar rentabilidades que fariam qualquer banqueiro suíço ter um piripaque de inveja? 125% do CDI? Isso é para amadores. O negócio era estruturar o futuro sobre pilares de pura fé, otimismo e — descobrimos agora — uma contabilidade criativa digna de prêmio Nobel “de ficção”.
John Maynard Keynes, o economista britânico que batizou de “espíritos animais” os impulsos irracionais que movem os investidores, já advertira que o mercado pode permanecer irracional mais tempo do que você consegue permanecer solvente. O capixaba, porém, preferiu apostar que a irracionalidade duraria exatamente até o dia do seu resgate.
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É fascinante observar a coreografia do colapso. Ela se repete com a precisão de um ritual antigo. Primeiro, os rapazes brilhantes do mercado aparecem nas capas de revistas de negócios sorrindo com a postura de salvadores da pátria. Falam difícil, usam termos em inglês que você só entende se pagar um curso de R$ 10 mil e prometem que o seu capital está seguro nas mãos divinas de um ecossistema financeiro “robusto”. Aí, de repente, o castelo de cartas resolve tirar férias permanentes.
O escândalo estala, o passivo de quase um bilhão salta do armário como um esqueleto impaciente, e o que fazem os nobres líderes? Um clássico da dramaturgia corporativa: a culpa é do outro. O fundador é afastado sumariamente sob suspeita de “gestão temerária”, os sócios prometem processar até a sombra do próprio reflexo no espelho, e os investidores… ah, os investidores olham para o extrato com a expressão de quem foi abduzido por marcianos.
É uma verdadeira aula de inovação econômica. O Brasil precisou de quase quatro séculos para abolir a escravidão; bastaram alguns anos de promessas para que o mercado inventasse uma modalidade nova e sofisticada de transferência de riqueza: o cidadão que passa metade do ano trabalhando para pagar impostos e a outra metade assistindo ao próprio dinheiro virar pó em títulos de papelão. Joseph Schumpeter, o economista austríaco que cunhou o termo “destruição criativa” para descrever como o capitalismo se renova destruindo o obsoleto, chamaria isso de um belo exemplo da sua teoria. Nós, com menos elegância e mais precisão, chamamos isso de destruição sem criatividade alguma.
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E aqui a crônica vira sociologia capixaba, porque o caso APEX não é apenas um rombo privado: é uma zona cinzenta entre o mercado e o Estado, onde herdeiros de governadores ocupam postos na gestora, um empresário que negociou uma grande marca com a empresa ascendeu a cargos que controlam o Fundo Soberano do Espírito Santo (Funses), o parceiro bancário da APEX passou a gerir recursos públicos e a gestora ainda figura como mantenedora de uma entidade com forte influência na gestão estadual — tudo dançando coladinho, sem pisar no pé um do outro, como se tivessem aprendido tango na Argentina de Milei, cuja irmã, Karina, também se viu em apuros para explicar de onde vinha a música.
O governo nega, com a voz firme de quem aprendeu o verbo “desvincular”, qualquer aporte direto de recursos públicos — mas a percepção de entrelaçamento entre as elites financeira e política, essa, não precisa de auditoria para ser constatada.
E o mais irônico de tudo? Ninguém sabia de nada. É sempre assim: a ignorância é o combustível do escândalo — é aqui que a auditoria independente entra em cena como o legista que chega quando o corpo já esfriou.
Parabéns aos envolvidos. Conseguiram transformar o dinheiro de centenas de famílias e grandes corporações em uma obra de arte abstrata: bonita de longe, mas completamente sem valor na hora de comprar o pão.
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Fica a reflexão, caro leitor: na roleta russa do capitalismo brasileiro, a única certeza é que, enquanto houver otário achando que almoço grátis existe, sempre haverá um gênio corporativo disposto a cobrar pelo guardanapo.
E pasmem: a Lua, essa continua à venda — ainda há muitas APEX por aí.