
Há um ano, neste mesmo espaço, escrevi sobre os buracos de Guarapari. Reli o texto antes de começar este e descobri que poderia republicá-lo sem trocar uma vírgula. Poucos colunistas podem se gabar de algo tão duradouro. Pena que o mérito não seja meu, e sim das ruas.
Sou amante de café e guarapariense por adoção há 33 anos, o que me confere autoridade em dobro no assunto. Por aqui, pede-se um café e chega só o creme. A xícara vem bonita, espumante, enfeitada. A gente mexe, procura, e lá no fundo não tem nada. O creme é bom, não se discute. Mas ninguém sai da cama precisando de creme. Sai precisando de café.
Creme, aliás, não falta. Temos festa para quase tudo, e cada nova data no calendário é saudada com fogos. Resta criar a Festa do Asfalto, que seria a mais disputada de todas por um motivo simples: ninguém jamais viu uma.
Enquanto isso, quem se arrisca ao volante faz um curso de arqueologia sem sair do carro. Todo trecho guarda camadas: o asfalto de uma gestão, a emenda da seguinte, o recorte aberto para passar um cano, o tapa-buraco que veio depois e o buraco novo que surgiu antes de o tapa-buraco secar. O resultado é remendo sobre remendo, uma colcha em que nenhum retalho combina com o vizinho. O motorista local desenvolveu um talento que autoescola nenhuma ensina: dirige em zigue-zague, sabe de cor onde a poça esconde um poço e freia antes do susto. O turista, que ainda não aprendeu a coreografia, paga a lição no pneu.
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Três décadas de fotografia, e esta cidade ainda me surpreende. Em 2025, lancei o livro Nuances Guarapari, uma declaração em imagens às suas belezas e à sua cultura. Há pouco, somou-se a ele o Soneto a Guarapari, porque certos amores só cabem em verso. Quem entrega a um lugar a lente e a palavra fala dele com o cuidado de quem o quer inteiro.
De qualquer ângulo que não seja o chão, cada cartão-postal se justifica: o mar verde-turquesa com jeito de pintura, o nascer e o entardecer que inventam cores nunca vistas, o clima e, acima de tudo, aquela energia monazítica que poucos litorais do mundo oferecem.
Avançamos em muita coisa, e seria desonesto negar. A agenda de eventos cresceu, o destino aparece em vitrines cada vez mais distantes, há gente séria trabalhando para atrair visitantes de fora. O básico, porém, ficou para trás. E o básico de uma cidade é aquilo em que se pisa. O Fórum Econômico Mundial já pôs o Chade na lanterna do planeta em qualidade de estradas. Não conheço o país. Em certas esquinas nossas, confesso, fico sem saber quem levaria o troféu.
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Dizer isto incomoda. Onde o turismo paga as contas, espera-se que o colunista traga o pôr do sol e o adjetivo generoso, e crítica costuma soar a ofensa de família. Mas não aponto o dedo para fulano ou beltrano. O problema atravessou mandatos, sobreviveu a discursos, assistiu a mais de uma posse. Muda quem ocupa a cadeira; os buracos permanecem no mesmo endereço, com a pontualidade que falta às obras.
Devo um agradecimento aos diretores e à editora deste jornal, que sempre me deram liberdade para pensar em voz alta. Publicar uma crítica à cidade que eles também respiram, amam e vivem pede coragem, e ela nunca faltou por lá.
Escrevo porque sou apaixonado por esta terra, e paixão verdadeira não se contenta com a espuma. Calar seria uma forma educada de desamor.
Guarapari, cadê o café? Creme, a gente já tem de sobra.
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