
“Ah, este café não sei (…) daqui da roça não vai dar em nada.” Assim falou, na versão suavizada pela filha, um agricultor de setenta e três anos, perfeccionista até a raiz, sobre o lote que cultivou com rigor de ourives e que foi à análise como “Comodity 1”, nome que a bolsa dá ao café sem sobrenome. O relatório do Ifes/Coffee Design discordou dele: 84,17 pontos, xícara limpa, sem defeitos, notas de chocolate, caramelo, calda de pudim e frutas amarelas. Raras vezes a ciência foi tão delicada ao contrariar um pai.
Confesso, constrangido, que há trinta anos dividi minha biografia em antes e depois de uma cápsula suíça. Pois a notícia mais saborosa que recebi recentemente não veio de nenhum grand cru de nome italiano, mas de Vargem Fria, no interior de Guarapari, onde moro, e de uma espécie, a Coffea canephora, o nosso conilon, que os puristas do arábica sempre trataram como parente pobre.
Johann Sebastian Bach compôs, na década de 1730, a Cantata do Café, em que um pai tenta afastar a filha da bebida e acaba vencido pela moça. Quase três séculos depois, a filha quer provar ao mundo o café do pai, e o pai apenas desconfia.
A cafeicultora, Aline Saith Marchesi, entrou em 1997, aos quinze anos, na Escola Técnica Federal do Espírito Santo, porque lugar de mulher, diziam, não era na roça. Acordava às 4h40 e percorria sozinha onze quilômetros de moto até o ônibus das 5h30; houve manhãs em que a lama lhe roubou as primeiras aulas. Formou-se, fez carreira como inspetora de qualidade e parecia ter cumprido o roteiro: sair da terra e voltar, quando muito, na aposentadoria.
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O destino tem senso de humor e nenhuma pontualidade. Em 2021, coube a ela a gestão do sítio, e, após uma infecção grave, vieram dores constantes e o diagnóstico de doenças autoimunes que tornaram inviável a vida na indústria; em seguida, a ansiedade e a depressão, que quase a fizeram desistir. Foi o café, velha paixão, que lhe ofereceu saída: e se a lavoura do pai guardasse um potencial que ninguém, nem ele, havia enxergado?
Há aqui uma ironia que romancista nenhum ousaria inventar: a antiga ETFES, hoje Ifes, que levou aquela menina para a cidade, é a mesma que agora atestou aquilo em que o pai se recusava a acreditar. A escola que a tirou do campo terminou por certificar que valia a pena voltar.
Karl Marx descreveu, em O Capital, o fetichismo da mercadoria (em inglês, justamente, commodity fetishism), feitiço que esconde no produto o trabalho de quem o fez. O pai de Aline viveu uma variante doméstica desse encanto: acreditou mais na cotação da saca do que no talento das próprias mãos. A palavra commodity faz com as pessoas o que o açúcar faz com o café: apaga diferenças.
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Em Vargem Fria, nada é milagre: sol pleno, solo equilibrado, mata em volta, abelhas na florada, colheita com 90% dos frutos maduros e secagem no dia seguinte. A ex-inspetora, que conhece o chão de fábrica, resume: trabalho bem feito traz resultado.
Perguntei como descreveria o sabor, e a resposta me desarmou: é café de casa de avó, com bolo quentinho na mesa. Marcel Proust precisou de uma madeleine molhada no chá para reencontrar a infância; a mim bastou a imagem, afinal meu café é servido no jogo centenário da minha avó Lindinha.
Durante décadas, o conilon morou no porão da cafeicultura enquanto o arábica desfilava pelos salões; hoje sobe a escada, como as mulheres da zona rural, que, segundo Aline, encontraram no Senar e no Sebrae o apoio que só valoriza quem empreendeu do zero.
A marca Sítio Dora e Teté, lançada em 2024 em homenagem aos pais, prova que sucessão tem menos de herança do que de tradução: a filha verteu a obra do pai para uma língua que o mercado de cafés especiais entende e remunera.
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Guarapari vende aos turistas suas areias monazíticas, mas esquece que 70% do seu território é rural e que, longe do mar, há quem produza excelência sem plateia. Fico com uma lição que relatório algum registra: há pais que só enxergam o valor do que fazem quando ele aparece impresso em um laudo, e há filhas capazes de atravessar lama, distância e dor para entregá-lo a eles. O café que não ia dar em nada deu 84,17 pontos e, desconfio, um pai orgulhoso, ainda que ele não o admita nem diante da xícara.
Onde encontrar
Pelo Instagram @sitiodoraetete, com entregas semanais no município e mensais na Grande Vitória. Aos fins de semana e feriados, na Rota da Ferradura, em Buenos Aires (Guarapari): no @saboresearte.buenosaires, ao lado do campo de futebol, e no Empório da Rota, na Rua do Lazer (Vila Anunciatta).