
Em 1944, um industrial alemão chamado Oskar Schindler gastou o que restava de sua fortuna para pôr mais de mil nomes em uma lista e, com ela, livrar aquelas pessoas da morte. Oitenta e dois anos depois, um bolsonarista de pijama atravessa a madrugada para pôr nomes em outra lista e, com ela, tirar o pão de quem pensa diferente. A primeira virou um filme de Steven Spielberg premiado com sete Oscars e se tornou sinônimo universal de decência. A segunda é um PDF chamado LISTA_COMUNISTAS_DO_BAIRRO_V4_FINAL.pdf, que circula pelo WhatsApp com a pompa de um decreto e a gramática de um bilhete de geladeira.
Seria apenas ridículo, se não fosse grave. Umberto Eco, que cresceu sob Mussolini, também fez uma lista, só que das boas: em O fascismo eterno, reuniu os catorze sinais pelos quais se reconhece o fascismo em qualquer época. Um deles cabe em três palavras: discordar é trair. É exatamente o que a lista do bairro diz sem dizer. Para ela, o vizinho que votou em outro candidato não exerceu um direito democrático, e sim cometeu um crime pelo qual deve pagar com o próprio sustento. Pedir que alguém seja boicotado e empobrecido por causa do voto não é opinião nem patriotismo, é discriminação política, o mais reconhecível dos gestos fascistas. Quem redige uma lista dessas pode até não se saber fascista, mas o gesto sabe por ele.
Não pense, leitor, que isso é coisa de capital. Aqui em Guarapari, a Cidade Saúde, também corre a nossa listinha de lugares e pessoas, repassada de celular em celular com o sigilo de uma receita de moqueca: todo mundo jura que é segredo, e todo mundo tem uma cópia. O método é sempre o mesmo. O investigador de plantão vasculha o Facebook do borracheiro até encontrar um vestígio vermelho na foto de capa de 2026, e a sentença sai na hora: naquela borracharia ninguém mais troca pneu. Curiosamente, o mesmo rigor não alcançou o calendário de mulher pelada de 1997, desbotado na parede da oficina, que o defensor de Deus, pátria e família aprova sem ressalvas e ainda folheia, com devoção cívica, até dezembro. Depois chega a vez do encanador. Seu Josias, o único que atende aos domingos, curtiu uma tirinha do Armandinho e também foi riscado: ninguém o chama, nem que o esgoto suba pelo ralo. A exceção é a padaria proibida, que faz o melhor pão na chapa da região e onde o patriota entra de boné e óculos escuros, como quem visita um bar clandestino na Chicago da Lei Seca.
Estamos em pleno século XXI. Um aplicativo traduz mandarim em tempo real, robôs passeiam por Marte, e ainda há quem escolha o eletricista pelo voto. Em maio, aliás, parte dessa turma tomou detergente diante das câmeras, em solidariedade a uma marca de limpeza da qual a Anvisa mandara recolher lotes por risco de contaminação. Por coerência, o redator da lista deveria incluir o próprio nome, ali entre um suspeito e outro, de copo de Ypê na mão e brinde ensaiado para as redes.
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Não por acaso, essas listas costumam descer da cobertura e cair sobre quem mora no térreo. Nelas raramente aparecem banqueiros; aparecem o borracheiro, o encanador, a doceira, o pescador, gente que, aos olhos de quem escreve, existe para servir e, portanto, deve obedecer. O Brasil viu essa mentalidade de corpo inteiro no dia 14 de outubro, quando o Senado aprovou o fim da escala 6×1. O senador Carlos Portinho, do PL do Rio, votou a favor, mas fez questão de explicar em plenário que precisa de Seu Francisco, porteiro do seu prédio há vinte anos, para pôr o lixo na calçada aos sábados, no horário exigido pela prefeitura; e avisou que, se for preciso, recorrerá a um diarista sem INSS, sem FGTS e sem garantia nenhuma. Eis a régua da lista: de um lado, quem tem direitos; do outro, quem tem serventia.
O que o autor da lista não percebe é que a História tem o hábito de inverter esses papéis. Da lista de Schindler conhecemos os nomes dos salvos; dos burocratas que datilografavam as outras listas, quase ninguém se lembra. Dalton Trumbo, banido de Hollywood como comunista pela lista negra dos estúdios, teve reconhecidos, ainda que tarde, os dois Oscars que ganhara escondido atrás de outros nomes, enquanto Joseph McCarthy, o senador que batizou aquela era de perseguição, virou sinônimo de infâmia. Estar em uma lista dessas, portanto, não é vergonha, é atestado: certifica que ali trabalha alguém que não se ajoelhou, não compactuou com o fascismo e continuou a servir a todos, inclusive a quem o denunciou.
Por isso, se é para fazer lista, proponho outra. Nela entrariam o borracheiro que trocou o seu pneu debaixo de chuva sem perguntar em quem você votou; Seu Josias, que largou o almoço de domingo para socorrer a sua cozinha; Seu Francisco, que há vinte anos põe na calçada o lixo de quem não o enxerga; o barraqueiro da Praia do Morro, que serve o mesmo peixe frito a petista e a bolsonarista; o padeiro que acorda às quatro da manhã para que o pão de todos, de todos mesmo, esteja quente às seis; e a vizinha do 302, cujo bolo de cenoura nunca pediu título de eleitor a ninguém. É gente que pratica, sem saber, o ensinamento do Talmude gravado no anel que os operários deram a Schindler ao fim da guerra: quem salva uma vida salva o mundo inteiro. Quem salva a padaria do vizinho talvez não redima o mundo, mas preserva a cidade onde todos moramos. Essa lista, sim, merece ser “encaminhada com frequência”.