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Marcelo Moryan
Coluna Marcelo Moryan

Marcelo Moryan é publicitário, designer, escritor, fotógrafo e artista multimídia, reconhecido por uma produção que combina precisão técnica, poesia visual e olhar crítico sobre o cotidiano.

Coluna Marcelo Moryan

A Psicologia de um país fraturado

Por Redação Folhaonline.es
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Ilustração: Marcelo Moryan

Basta observar a plateia de certos eventos corporativos ou o deque de um clube de luxo para testemunhar uma das cenas mais curiosas da nossa comédia de costumes: o homem que tem tudo e se comporta como quem não tem nada. Carro do ano na garagem, grife no corpo, raquete importada na mão e aproveita o intervalo entre dois sets para explicar aos parceiros, diante do garçom que pegou dois ônibus para servi-los, que o Brasil é inviável. O Estado o persegue, o imposto o sangra, e a economia é uma âncora amarrada ao tornozelo do seu talento.

Na outra ponta da pirâmide, a contradição é mais cruel. Dias atrás, vazou um áudio em que o deputado federal José Medeiros (PL-MT), candidato ao Senado, explicava a um prefeito por que não podia aparecer abraçado a uma companheira de coligação: seu eleitor, aquele que “ora para alienígena e bebe detergente”, o abandonaria na hora. O comentário, feito com a intimidade de quem fala de um velho conhecido, logo foi rebaixado por ele mesmo a “piada antiga”, enquanto os aliados tratavam de convertê-lo em meme. Entre risos e vídeos de deboche, o insulto ganhou um álibi e talvez não custe ao autor um único voto.

A frase do deputado fez o que nenhum sociólogo conseguiu: pôs no mesmo frasco o dono da mansão e o morador da periferia, porque o eleitorado que ele ridicularizou vai da caminhonete de luxo ao ponto de ônibus. Resta a pergunta: como explicar o milionário que se sente perseguido e o vulnerável que venera quem o humilha?

Comecemos pela mansão. A psicologia social chama de viés de autoconveniência a tendência de creditar as vitórias ao próprio mérito e as derrotas às circunstâncias. Nosso tenista é um liberal convicto, com uma única exceção: o fracasso, que ele estatiza sem hesitar. Convencido de que enriqueceu sozinho, esquece a estrada pública por onde roda o seu negócio, a universidade federal que formou metade da diretoria e a mão de obra barata que a desigualdade fabrica em série. Nem tudo em sua queixa é fantasia: o sistema tributário brasileiro é mesmo um labirinto, e a violência não poupa ninguém. O problema é a proporção.

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O historiador americano Christopher Lasch batizou de “rebelião das elites” a retirada silenciosa de quem passa a pagar escola, saúde e segurança privadas e, aos poucos, deixa de se sentir parte do país. Visto de trás do muro, o Brasil parece um condomínio mal administrado do qual só chegam boletos. O sujeito emigrou sem sair de casa. Reclamar da pátria é, para ele, o que o relógio suíço era para o avô: um distintivo de classe. Quem lamenta mais alto anuncia que carrega a nação nas costas.

Longe da quadra de tênis, o mecanismo é mais perverso. Ao relembrar a Grande Depressão, John Steinbeck escreveu em 1960 que faltava à esquerda dos Estados Unidos um ingrediente básico: proletários assumidos. Todo mundo era “um capitalista temporariamente constrangido”. O eleitor que ouve o político zombar “daquela gente” faz o mesmo cálculo: não é de mim que ele fala; eu sou trabalhador, eu sou diferente. Paulo Freire descreveu esse drama em Pedagogia do Oprimido. Sem horizonte de libertação, o oprimido “hospeda” o opressor em si, e o seu ideal deixa de ser o fim da opressão para se tornar uma promoção dentro dela. Votar no homem forte é tomar emprestada a valentia que a vida lhe negou. Rir das piadas dele é a senha para sentar à mesa dos vencedores, ainda que na ponta, perto da porta da cozinha.

Mas a história tem um terceiro Brasil, e ele costuma ler colunas como esta. É o que ouviu o áudio, gargalhou e o repassou com um comentário sobre a ignorância alheia. Devagar com o andor: quem, de diploma na parede, ri do eleitor do detergente repete, com mais vocabulário e menos franqueza, o gesto do deputado. Reduz um ser humano a uma caricatura. Para quem vive onde o Estado só chega de viatura, a fé, a família e o medo do traficante da esquina não são pautas inventadas; são o chão em que se pisa. Quem não enxerga isso explica o voto dos outros sem jamais compreendê-lo.

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Neste domingo, os três Brasis vão se cruzar em silêncio, cada um na sua cabine. O da mansão votará movido por um medo maior que o risco. O do ponto de ônibus, muitas vezes, premiará quem zomba dele pelas costas. O da estante de livros apertará a tecla verde, seguro de que entende os outros dois. A urna, feita para pesar projetos, fará desta vez uma radiografia das nossas fraturas.

No fim, o lamento da mansão, a devoção do detergente e o riso da estante são sintomas da mesma doença, a de um povo que perdeu a capacidade de se reconhecer como comunidade. Cada um vive em seu Brasil murado e olha o vizinho como ameaça, massa de manobra ou piada. A polarização reduziu a eleição a um corredor de duas portas, e a nossa velha arquitetura social fez o resto.

Para muitos, votar tornou-se a escolha entre lutar com todas as forças para ficar fora da senzala ou marchar para dentro dela, certos de que um dia serão senhores de engenho. O mais trágico, porém, não é a escolha. É que quase ninguém pergunta por que o engenho continua de pé.

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