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Marcelo Moryan
Coluna Marcelo Moryan

Marcelo Moryan é publicitário, designer, escritor, fotógrafo e artista multimídia, reconhecido por uma produção que combina precisão técnica, poesia visual e olhar crítico sobre o cotidiano.

Coluna Marcelo Moryan

Alcuíno tinha razão?

Por Redação Folhaonline.es
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Ilustração: Marcelo Moryan

Em 798, o teólogo Alcuíno de Iorque escreveu uma carta severa a Carlos Magno: não se deve dar ouvidos a quem diz que a voz do povo é a voz de Deus, pois a turbulência da multidão está sempre muito próxima da loucura.

A humanidade prefere ignorar o aviso e continuar a tropeçar na mesma pedra. A última prova veio de Minas Gerais, onde o senador Cleitinho, para legitimar sua candidatura ao governo, resgatou o chavão descontextualizado: Vox populi, vox Dei.

É isso que a história nos ensina? Vejamos…

O povo é burro. Não é insulto, é constatação histórica. Hitler nunca foi eleito — nunca obteve maioria absoluta. Mas ascendeu ao poder porque a maioria não fez nada para detê-lo. O mesmo sufrágio que elegeu Mandela conduziu Hitler ao poder pela via da omissão. O mesmo voto que enterrou ditaduras ressuscitou demagogos.

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A maioria, quando consultada em bloco, não pensa: reage. Não escolhe o melhor projeto — escolhe o rosto mais familiar, o grito mais alto, a promessa mais absurda. Se a voz do povo fosse realmente a voz de Deus, o Criador teria muito o que explicar sobre Auschwitz, sobre cada tirano que chegou ao poder de mãos dadas com as urnas.

Mas não são só as urnas que revelam a insensatez da massa. Há também as ruas. Em 1964, não houve voto — houve aplauso. Enquanto tanques ocupavam o país, uma parcela barulhenta da população saiu às ruas para celebrar. A mesma gente que anos antes pedia reformas, agora pedia intervenção. A voz do povo, naquele abril, não foi a voz de Deus — foi a voz do vizinho armado, da dona de casa aflita, do padre que abençoava a ruptura. A turba não precisou de urna: bastou-lhe a convicção de que estava certa. E estava sempre muito próxima da loucura, como Alcuíno previra.

Meio século depois, o espetáculo se repetiu em outro palco. Do outro lado do Atlântico, um empresário alaranjado, desvairado e narcisista, descobriu que não precisava de maioria para incendiar a democracia. Bastava-lhe a turba. Trump não venceu o voto popular em 2016, mas venceu o Colégio Eleitoral — e, mais importante, venceu a imaginação de uma multidão que preferia acreditar em teorias da conspiração a encarar a própria irrelevância.

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Em 2021, quando aquela mesma aglomeração invadiu o Capitólio, não havia urna envolvida. Havia apenas a certeza bestial de que a voz deles — e somente a deles — era a voz de Deus. O megalomaníaco não criou a horda; ele apenas a vestiu de vermelho MAGA (Make America Great Again) e a apontou para as janelas do Capitólio. E, quando a justiça finalmente apertou o cerco, o mesmo vaidoso, já de volta ao poder, tratou de perdoar os condenados. Não houve arrependimento, não houve reparação — houve a absolvição do delírio coletivo, a bênção oficial à insânia. A multidão invadiu, quebrou, feriu, e o veredito foi: pode fazer de novo.

Deus, se existe, não endossa a pauta de ninguém. O silêncio divino diante do que o povo escolhe — e do que a massa aplaude — é a prova mais eloquente de que o Altíssimo, depois de ouvir a voz popular uma vez, decidiu que trabalharia em home office.

Mas aqui está uma verdade incômoda: não inventamos nada melhor — a democracia, esse sistema grotesco em que se contam cabeças em vez de quebrá-las. Ela depende justamente de quem erra, de quem vota contra o próprio bolso e acorda surpreso no dia seguinte. Depende da burrice coletiva e, milagrosamente, sobrevive a ela. Não há regime que funcione melhor, apesar de seus cidadãos — exceto este, que funciona apesar de tudo.

E é nesse cenário que nos resta a esperança. Esse vício incurável. É aqui que o senador mineiro sacode o pó do latim, o padre requenta a homilia, o pastor repete que Deus tem um plano. Do outro lado do oceano, o narcisista alaranjado posta que o povo decidiu. A humanidade prefere acreditar que sua escolha foi inspirada a encarar o abismo de ter escolhido sozinha, com as próprias mãos trêmulas e o próprio juízo curto.

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Da próxima vez que um político decretar Vox populi, vox Dei no microfone, lembre-se do conselho de Alcuíno: não dê ouvidos. A massa, quando aplaude, está sempre a um passo da loucura. Seja em 64, seja em 2021, seja agora. E Deus, se estiver ouvindo, não está nem um pouco interessado.

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