
Parabéns, senhoras. Vocês conquistaram o mundo.
Hoje a mulher pode ser CEO de multinacional, astronauta, engenheira aeroespacial, maratonista, mãe de pet e, de quebra, cumprir às 23h um ritual de skincare digno de laboratório suíço. Nós, homens, assistimos a essa revolução de camarote, tentando entender como vocês dão conta de tudo. E, com tantas credenciais no currículo, chega a ser fascinante notar que, de vez em quando, o instinto de sobrevivência tira férias coletivas.
A regra de ouro da modernidade dói, mas é cristalina: você pode ser o que quiser, menos burra.
E a burrice que me preocupa não mora nos livros. Mora em dois lugares onde o encanto costuma vencer a razão: o coração e a urna. A poucos dias da eleição, convém lembrar que ambos são cortejados pelo mesmo tipo de sedutor, aquele que promete proteção enquanto prepara a coleira.
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Conheço doutoras que resolvem equações diferenciais de cabeça e ignoram cada sinal vermelho do Zé do Tinder porque ele “tem potencial”. Mestrado, empresa própria e a convicção inabalável de que o rapaz vai mudar. Não vai. Amor incondicional e tolerância a desaforo só vêm juntos quando o assunto é mãe. E olhe lá.
O buraco, claro, é mais embaixo.
No relacionamento abusivo, a manipulação desarma quem brilha em qualquer outro terreno. A executiva que lidera trezentas pessoas congela diante do embuste que grita porque ela curtiu a foto de um colega. Aceita migalha embrulhada em ciúme possessivo e batiza aquilo de “amor intenso”. Justiça seja feita, isso tem menos a ver com QI do que com método: manipulador competente estuda a vítima melhor do que ela se conhece. A burrice começa depois, quando os sinais aparecem nítidos e, mesmo assim, ganham desconto.
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Dirão que ninguém manda no coração. Concordo. Pascal escreveu que o coração tem razões que a própria razão desconhece. Não escreveu que a razão deve pedir licença e sair da sala. Paixão não se escolhe; ficar, sim.
E quando ficar deixa de ser escolha e vira medo, não há burrice nenhuma. Há uma vítima, e a saída é pedir ajuda. Ligue 180, a Central de Atendimento à Mulher: gratuita, sigilosa e disponível a qualquer hora.
Esse sedutor, porém, não age apenas entre quatro paredes. Também pede voto.
É de cair o queixo ver a mulher que lutou anos pela independência, que rala para pagar os boletos e exige respeito no trabalho, chegar à urna e votar em quem pretende restringir seus direitos, trata a autonomia feminina como capricho e aplaude o machismo feito tradição de família. Esquece que a Lei Maria da Penha só sai do papel com delegacia, abrigo e orçamento, e que orçamento depende de quem ela elegeu. Escolher alguém disposto a rebaixá-la a cidadã de segunda classe é o tiro no pé mais certeiro da história moderna. É financiar as próprias grades.
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Para coroar o absurdo, existe a militância ao avesso. Você já viu: a mulher que se planta diante das câmeras, anel de rica no dedo e microfone na lapela, para agradar a plateia machista e pregar que “mulher nem deveria votar”.
O figurino é antigo. Nos anos 1970, a americana Phyllis Schlafly rodou os Estados Unidos ensinando que o lugar da mulher era o lar. Enquanto isso, formava-se em Direito, disputava vaga no Congresso e publicava livro atrás de livro. Recomendava o avental às outras e reservava o palanque para si.
Querida, esse microfone custou caro.
Em 1913, a sufragista inglesa Emily Davison invadiu a pista do Derby de Epsom, foi atingida pelo cavalo do rei e morreu quatro dias depois. Por aqui, o voto feminino só veio em 1932, com o Código Eleitoral, após décadas de pressão de mulheres como Bertha Lutz. Trocar essa herança por tapinha nas costas equivale a devolver a chave da cela com um sorriso e agradecer ao carcereiro.
Do meu camarote, fico me perguntando como chegamos a esse ponto. Desconfio que a resposta tenha quase cinco séculos.
Mal saído da adolescência, o francês Étienne de La Boétie escreveu o Discurso da Servidão Voluntária para decifrar um mistério: por que tanta gente obedece a quem a oprime, se bastaria deixar de sustentá-lo? O tirano, concluiu, só tem o poder que lhe entregam. De lá para cá, o roteiro mudou pouco. O lobo continua chegando em pele de cordeiro, a carência transforma qualquer traste em projeto de salvação, e o marketing político cuida do resto.
Então, senhoras, sigam subindo na carreira, conquistando território e nos dando aulas de competência. Só instalem, pelo amor de Deus, um filtro antitóxico nas escolhas afetivas e levem um pingo de estratégia à urna. Os tempos já são competitivos demais para abrir espaço à burrice voluntária.
La Boétie resumiu em uma linha o que eu levei uma coluna inteira para dizer:
“Sede resolutos em não mais servir, e sereis livres.”