
Há livros que a gente não apenas lê; a gente tateia. Foi o que aconteceu quando recebi em mãos as páginas de “Aconteceu Comigo”, o livro de memórias de Manuel Sampaio Netto.
Percorrendo cada detalhe daquela trajetória — desde a solidez do trabalho que culminou na fundação do Grupo Espírita Allan Kardec até os versos comoventes escritos no leito de morte, em que ele equilibrava o desejo de escapar do xeque-mate da doença com a serenidade de quem cumpriu sua missão — percebi o peso e a beleza de uma vida inteira construída com propósito.
Fechar a última página daquela biografia me deixou em silêncio. E o silêncio costuma abrir espaço para as nossas próprias urgências.
Dias depois, no meio de uma reunião à mesa para comemorar o aniversário do meu filho, fui invadido por um lampejo repentino. Não era nostalgia do passado. Era algo muito mais complexo, quase transcendente: ali, diante daquela celebração, a saudade do futuro me visitou. Olhando para tudo aquilo, percebi que a alegria do momento já trazia em si a consciência exata de que um dia ela passaria.
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A gente costuma sofrer pelo que acabou ou ansiar pelo que ainda não chegou. Mas há uma fenda estreita e luminosa onde o tempo se dobra. É aquela fração de segundo em que você está sorrindo em torno do bolo, vendo quem você ama crescer, e uma voz interna sussurra: “Guarde bem esta cena, porque um dia isso vai doer de tanta falta”.
Manuel sabia disso quando escreveu seus últimos versos, pronto para a partida, mas ainda amando a vida. Ele sabia que o grande milagre da existência não é durar para sempre, mas ser intenso o bastante para merecer a saudade.
Essa lucidez pode parecer pesada à primeira vista, mas ela é, na verdade, um ato de profunda libertação. Saber que vou sentir saudade do que estou vivendo agora me obriga a viver com mais inteireza. Não há espaço para o piloto automático quando você tem a dimensão de que o agora é um tesouro passageiro.
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As melhores memórias começam a ser escritas exatamente assim: com a consciência aguda de que, um dia, olharemos para trás e agradeceremos por ter tido a coragem de vivê-las de olhos bem abertos.
E, ironicamente, enquanto o presente acontece, a alma já sorri e chora, lembrando com carinho a saudade que ainda vai sentir — porque o peso invisível desse sentimento é ter, um dia, o privilégio de dizer: “Aconteceu comigo”. Porque o que se vê, página por página, é uma história inspirada pelo amor à família e ao próximo.
E cá estou, com lágrimas nos olhos — e, se você pudesse me ver agora, me veria também feliz. Porque é no amor que encontro forças para viver — o mesmo amor a que se devotou Manuel Sampaio Netto.