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Marcelo Moryan
Coluna Marcelo Moryan

Marcelo Moryan é publicitário, designer, escritor, fotógrafo e artista multimídia, reconhecido por uma produção que combina precisão técnica, poesia visual e olhar crítico sobre o cotidiano.

Coluna Marcelo Moryan

Guarapari: o dono que falta ao cachorro da varanda

Por Redação Folhaonline.es
cachorro capa
Foto real alterada*

O relato chegou como chegam as coisas que ninguém quer carregar sozinho: em forma de voz aflita, contando que, em um apartamento na Praia do Morro, um cachorro vive confinado há mais de 72 horas em uma varanda, cercado pelas próprias fezes, tratado como objeto que ninguém tem tempo de olhar. Antes de escrever qualquer palavra, houve o cuidado de conferir cada detalhe: as fotos, os vídeos, a localização do prédio. Os fatos bateram. Não era impressão nem exagero — tratava-se de um ser vivo devolvido à própria solidão, e de alguém que perdeu o sono vigiando aquela janela.

Os canais oficiais de denúncia foram repassados, como deve ser. A resposta, porém, chegou com o peso que a urgência não comporta: trinta dias. Trinta dias para tentar uma solução, em razão da demanda de casos. Traduzindo para a língua da varanda: o cachorro continuará deitado na própria sujeira por mais um mês, respirando o próprio abandono, enquanto o sistema decide se ele tem pressa.

O calendário da burocracia conta os dias em folhas de papel; o cachorro os conta em camadas de fezes. A demora não é indiferença — é pior: é a indiferença organizada, com protocolo, carimbo e prazo.

E não é preciso subir até uma varanda para encontrar o mesmo descaso. Basta caminhar pelas ruas. Não é difícil percorrer qualquer bairro e medir, nas manchas deixadas no asfalto, a distância entre o discurso do afeto e a prática do cuidado — os cocôs de cachorro que os donos não recolhem, como se o passeio terminasse onde termina a conveniência. A cena não escolhe classe: repete-se em qualquer esquina, em qualquer endereço, até nos endereços grifados. Durante uma caminhada pela Enseada Azul, um dos endereços mais bonitos da cidade, vi com meus próprios olhos o flagrante desse descaso. E uma moradora dali, apaixonada por animais, confirmou com um encolher de ombros: é comum. A sujeira, portanto, não tem classe — tem dono. E é esse dono que falta.

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A mesma mão que não recolhe o que o cão deixa na rua é a que tranca o cão na varanda: gestos pequenos de negligência diária, repetidos até virarem paisagem. Ter um animal não é símbolo de status nem enfeite para a fachada de um prédio à beira-mar. É um contrato de responsabilidade emocional e física, que exige tempo, disposição, paciência e, acima de tudo, respeito por uma vida que depende inteiramente de nós. O problema nunca foi a falta de tempo: é a falta de humanidade. E enquanto houver quem feche a janela para não ver o sofrimento alheio — e quem desvie o olhar da calçada para não ver o próprio rastro —, continuaremos colecionando varandas frias, prazos de trinta dias e corações humanos vazios.

*Sobre a foto: Imagem real da varanda, com cores alteradas para preservar a identidade do local e proteger o informante. O cachorro e as condições em que foi visto são verdadeiros e as informações foram confirmadas.

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