
O animal mais solitário da Terra é aquele que passa a vida inteira convencido de que pertence a uma multidão. Não há solidão mais perfeita — nem mais barata — do que a de quem se acredita acompanhado. Custa apenas a alma.
Desaprendemos a andar sozinhos no exato dia em que provamos o conforto térmico da manada. O arranjo era provisório, um ajuntamento estratégico para espantar o lobo. Mas o provisório virou morada. Acostumamo-nos tão depressa ao cheiro de esterco e à monotonia do pasto que nós mesmos trancamos a porteira por dentro.
Hoje, a maior ambição do homem contemporâneo é o crachá de boi.
Não há mais pensamento; há o reflexo condicionado ao estalo do chicote digital. Dê a um ser humano a ilusão de pertencer a um bloco coeso, e ele mastigará qualquer capim ideológico com o sorriso do bovino grato. Se a manada corre para a direita, ele corre. E se a manada empaca à beira do abismo, ele não titubeia — e se joga mesmo assim — mas faz questão de cair berrando o slogan da moda, para que todos testemunhem que foi por vontade própria. A queda é a única coisa que ainda escolhe, e escolhe mal.
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O inferno deixou de ser os outros. O inferno virou a obrigação de ter a mesma opinião dos outros.
Criamos uma cultura de pastoreio voluntário. O algoritmo é apenas um cão pastor invisível que ladra vinte e quatro horas nos nossos ouvidos, e nós baixamos a cabeça agradecidos, convencidos de que somos livres porque podemos escolher em qual bosta pisar. Matamos o atrito, o pensamento torto, a dúvida fértil, a contradição — tudo aquilo que faz de um homem um indivíduo — em troca da paz estéril de ruminar em coro. A liberdade virou um cardápio de merda: a única escolha que nos resta é o sabor.
Tivemos, recentemente, uma praga global que escancarou a nossa fragilidade de carne e osso. Era a oportunidade perfeita para lembrarmos que a morte não negocia com partido nem pede autorização ao líder do rebanho. Diante da nossa insignificância nua, tínhamos a chance de finalmente andar sozinhos.
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E o que fizemos?
Corremos para o cercado mais próximo para ver quem mugia mais alto. Usamos a iminência do fim para disputar de que lado da cerca queríamos ser abatidos, transformando a própria morte em espetáculo para a plateia do curral. A tragédia virou torcida.
Quem aceita ser gado perde, antes de qualquer direito, o direito à própria tragédia. Morre sem nome, sem voz e sem alma — mais um número na estatística do matadouro, uma linha a menos na planilha do abate.
Engano crasso: nunca fomos expulsos de paraíso algum. Nós mesmos nos oferecemos ao abate, assinamos a própria guia de recolhimento e ainda disputamos o lugar na fila do curral. O paraíso não nos perdeu; nós o trocamos por um cocho.
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Nós perdemos. E o pior: perdemos com gratidão.