
Vivemos sob a ditadura da sensibilidade seletiva. Basta a imagem de um animal atropelado circular em um grupo de WhatsApp para que uma comoção coletiva se instale, resgates sejam organizados e o mundo, por um instante, pareça um lugar melhor. É louvável. Contudo, ao cruzarmos a fronteira dessa empatia e ingressarmos no território das estatísticas humanas, o silêncio torna-se ensurdecedor.
O contraste é um abismo moral. Desde o agravamento da ofensiva em Gaza, milhares de crianças foram dizimadas por uma máquina de guerra que ignora qualquer distinção entre combatentes e civis. Enquanto o Ocidente debate protocolos diplomáticos e “danos colaterais”, o que se desenha diante de nós, com precisão cirúrgica e destruição industrial, é classificado por historiadores e intelectuais como o Holocausto Palestino.
A ironia atinge seu ápice mais cruel: como pode um povo que atravessou o vale das sombras de Auschwitz, carregando no corpo a marca indelével do trauma, tornar-se arquiteto de um cenário de horror de tal magnitude? A história entra em um ciclo de repetição perverso. Líderes como Benjamin Netanyahu, amparados pela retórica de figuras como Donald Trump — cujas investidas políticas frequentemente destilam desdém pelo “outro” —, operam sob uma lógica de força que desumaniza o palestino até a invisibilidade. Eles não eliminam indivíduos; destroem “alvos”.
Essa desumanização não é acidental. Ela é a base necessária para que a atrocidade seja tolerada. Se a vida de um palestino é equiparada a algo menor que a de um cão, a destruição de escolas e hospitais transmuta-se em mera “limpeza de área”.
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Nesse ponto, somos forçados a uma interrogação que atravessa séculos de filosofia: Onde está Deus diante da carnificina?
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Por que o silêncio divino perante a criança sepultada sob os escombros? A resposta teológica clássica, fundamentada no “livre-arbítrio”, soa como um insulto vazio. Se o Criador permite que o poder ignore a dignidade humana, talvez o problema não seja Sua ausência, mas nossa insistência em um Deus que, segundo a narrativa dos opressores, sempre escolhe um lado. Quando a religião vira salvo-conduto para o massacre, a divindade é transformada em cúmplice de quem aperta o gatilho.
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Estamos diante de um colapso moral. Se o valor de uma existência é medido pelo lobby que a sustenta ou pela conveniência geopolítica que representa, nossa “civilização” é uma farsa. Um cão, em sua mudez, toca a nossa alma porque não nos ameaça. O palestino, com sua resistência e seu grito, confronta-nos com o espelho da nossa própria barbárie. E, nesse reflexo, não há salvação: aprendemos, enfim, que o sofrimento do outro é o destino final de todos, em um mundo onde a esperança é o último erro que nos permitimos cometer.