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Coluna Marcelo Moryan: Os novos mandamentos segundo Israel

Publicado em 22 de abril de 2026 às 13:58
Atualizado em 22 de abril de 2026 às 13:58

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coluna marcelo moryan 2
Ilustração: Marcelo Moryan

Existem imagens que não pertencem ao registro da notícia; elas pertencem à arqueologia do horror.

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A fotografia do soldado israelense golpeando sistematicamente uma estátua de Jesus Cristo em um vilarejo no sul do Líbano não é vandalismo militar. É uma síntese estética e brutal do fundo do poço civilizatório que habitamos em 2026 — o momento em que a tecnologia alcançou as estrelas, mas a moralidade retrocedeu às cavernas. Aquela marreta não fere apenas madeira ou gesso. Golpeia a ideia de alteridade — a incapacidade absoluta de reconhecer a existência do outro como sagrado ou ao menos inviolável. É a manifestação física de uma patologia que se tornou a principal doença do nosso século: a desumanização sistemática daquilo que nos confronta.

Desde a Nakba de 1948 — a “catástrofe” que fragmentou um povo — o gesto se repete com precisão de ritual. O braço armado do Estado tenta moer a identidade de quem está no caminho. A estátua imóvel é o espelho do povo palestino em Gaza e na Cisjordânia; é o espelho do refugiado que vê sua história ser triturada por quem detém o fuzil e o “direito” autoproclamado da força. O simbolismo daquele golpe transcende a geopolítica do Oriente Médio. É um arquétipo da intolerância moderna que habita múltiplos contextos.

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O uniforme e a arma dão ao indivíduo a ilusão de divindade. Ao quebrar o ícone religioso, o soldado tenta se colocar acima do próprio Deus, exercendo uma soberania baseada na destruição, não na criação. É o gesto do poder que não constrói — apenas derruba. A mesma marreta que golpeia a estátua é a mão que silencia o frágil. O soldado não vê arte nem fé — vê um alvo. Essa incapacidade de reconhecer o outro precede genocídios, torturas, exclusão social. É o mesmo gesto do machismo estrutural: a força bruta que aniquila o que não se pode controlar ou possuir. É a mesma mão que golpeia o corpo feminino, que sufoca a voz dissidente, que apaga a memória.

A doença mental do ódio se tornou coletiva. Não é loucura individual — é psicose de Estado. É a celebração da força sobre a razão, da destruição sobre a construção, da morte sobre a vida. E o mais aterrorizante é que essa patologia se normalizou. Assistimos a ela em tempo real, em vídeos, em noticiários, e seguimos adiante.

Esta imagem define nossa era porque não contém diálogo, apenas o som seco do impacto. É a representação simultânea de duas crueldades: a física, que destrói o abrigo e o corpo; e a psicológica, que busca apagar a esperança e o que o ser humano tem de mais íntimo — suas crenças, sua identidade. É o retrato do poder que não é usado para erguer, mas para provar que se pode derrubar. Um mundo onde a força bruta é celebrada como virtude e a compaixão é vista como fraqueza.

Ao olharmos para os fragmentos de Cristo no chão de Debel, não vemos apenas um sacrilégio religioso. Vemos o que sobrou de nós mesmos após décadas de guerras e preconceitos. Vemos a repetição de um gesto que começou em 1948 e nunca parou — apenas mudou de rosto, de uniforme, de justificativa.
Aquele soldado somos nós como humanidade — golpeando o próprio rosto em um espelho, acreditando que ao destruir a imagem do outro estaremos finalmente seguros, que a segurança vem da aniquilação, não da coexistência.

O que resta é apenas o entulho de uma civilização que esqueceu como se cura. E enquanto os fragmentos de Cristo jazem no chão, continuamos com a marreta na mão. Portanto, senhores, não sejamos mais hipócritas: Marretada, marretada, marretada são os novos mandamentos da humanidade.

E Cristo?

“Que Cristo? Ah, aquele babaca da estátua que o soldado israelense deu marretadas? Aquele que pregava amor, perdão, compaixão — tudo aquilo que aprendemos a desprezar? Aquele que não tinha fuzil, não tinha exército, não tinha poder? Aquele que perdeu porque não quis lutar? Aquele que morreu porque acreditou que a verdade era mais forte que a força? Que ingênuo!”

Responderão muitos ao chegar ao fim desta coluna.

As informações e/ou opiniões contidas neste artigo são de cunho pessoal e de responsabilidade do autor; além disso, não refletem, necessariamente, os posicionamentos do folhaonline.es

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