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Coluna Marcelo Moryan: Perdão sem justiça é PERVERSÃO
Por Marcelo Moryan
Publicado em 21 de junho de 2026 às 15:05
Atualizado em 21 de junho de 2026 às 15:05
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O apóstolo Paulo, em sua célebre epístola aos Romanos, no capítulo doze, versículo dezenove, procurou nos vender uma saída honrosa para a dor humana ao terceirizar o acerto de contas com os opressores. Resgatando uma antiga promessa cravada no capítulo trinta e dois de Deuteronômio — “Minha é a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor” —, o texto bíblico desenhou um mecanismo de compensação metafísica que esbarra, contudo, em um detalhe prático de aproximadamente trinta e três séculos: a ausência absoluta de recibo. O vazio divino diante do horror não constitui uma suposição teológica, mas um dado histórico concreto. Em maio de 2006, ao pisar na terra calcinada de Auschwitz, o próprio Bento XVI sucumbiu ao peso dessa mudez cósmica ao questionar por que o Criador tolerara o intolerável.
Essa mesma mudez que outrora se acumulou nas chaminés polonesas assenta-se hoje sobre a poeira asfixiante de Gaza. Esperar que a justiça desça das páginas sagradas para desarmar os tiranos da terra é apenas um confortável atestado de alienação. Em mais de seis milênios de história documentada, nenhuma força invisível assinou armistícios ou desviou ogivas de berçários; o palco histórico permanece estritamente humano, pavimentado por decisões de carne e pago com o colapso de corpos. A crença em um acerto de contas no além funciona apenas como uma anestesia estética para quem recusa encarar o abismo do presente.
Existe uma sofisticação cínica em folhear o Novo Testamento em busca de versículos sobre mansidão enquanto se ajusta a temperatura do ar-condicionado. O pacifismo de condomínio fechado transformou a absolvição em um artigo de luxo, uma indulgência barata que os intocáveis distribuem usando o sangue alheio como moeda de troca. Torna-se obscenamente simples pregar a virtude do perdão quando a lâmina corta exclusivamente a pele do vizinho.
Essa miopia moral opera por seleção e anestesia. Chocamo-nos com as ruínas do passado enquanto normalizamos a necrose social que se desenrola sob o sol do meio-dia. Vidas são reduzidas a escombros sob o pretexto de uma salvaguarda que há muito cruzou a fronteira da barbárie, consumidas entre o café da manhã e o engarrafamento matinal. É nesse ponto que a engrenagem do perdão revela sua verdadeira perversão: ela deixa de ser um ato de nobreza existencial para se tornar uma ferramenta de domesticação, exigindo a docilidade do oprimido para que o sono dos indiferentes não seja perturbado.
A mesma mecânica de normalização do trauma governa as ruas que pisamos. O massacre distante encontra simetria no mata-mata silencioso das nossas esquinas, na contabilidade doméstica de corpos femininos abatidos no recesso do lar e no silêncio imposto por milícias que negociam o direito de respirar pelo cano de um fuzil. A exigência de reconciliação sem a contrapartida da justiça nas periferias nada mais é do que a elite lavando as mãos em bacias de prata enquanto o sangue da base social continua quente no chão.
Sejamos honestos, ainda que a crueza fira o decoro dos hipócritas: se amanhã as manchetes anunciassem o colapso cardiovascular de Benjamin Netanyahu ou o fim biológico dos arquitetos do terror global, o planeta não vestiria luto. Apenas um espírito desprovido de senso de ecologia existencial não experimentaria um alívio físico na caixa torácica. Não se trata de sadismo rasteiro, mas da constatação biológica de que existem existências cuja única função é intoxicar a atmosfera coletiva.
Exigir a reconciliação diante da atrocidade absoluta sela essa hipocrisia. Se um invasor viola o seu santuário doméstico e submete os seus à barbárie de um cativeiro real, o perdão deixa de ser virtude para se converter em uma injustiça contra as vítimas. Há crimes que rompem o pacto de convivência e exigem o rigor inflexível da repulsa. Diante do horror, a exigência de absolvição universal é apenas o fetiche de quem nunca precisou recolher os próprios pedaços do chão.
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