
Há um esforço homérico em desver o óbvio. O militante médio treina a pupila para não enxergar, como quem faz da cegueira uma ginástica da alma: aplaudir a ruína intelectual é aceitável, desde que ela venha acompanhada do jingle correto. No picadeiro da política contemporânea, o sectarismo virou dogma de fé e a coerência foi exilada sem direito a recurso. Admitir que o adversário acertou é assinar, em cartório, o próprio atestado de apostasia.
É exatamente nesse cenário de trevas dogmáticas que o deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, Marcelo Santos, protagoniza uma heresia inaceitável para os fundamentalistas de plantão: ele enxergou.
Ao cravar, sem hesitar, em português claríssimo, que “não tem como dizer que Lula não ajudou” o Espírito Santo na crise e que “se a gente falar que tudo que ele fez foi errado, nós estamos mentindo”, o parlamentar cometeu o crime de preferir a realidade à narrativa. Na bizarra ética da polarização atual, ser pragmático é um escândalo; olhar para os fatos sem cabresto é uma revolução de alta patente.
A cena devolve à memória o juízo de Salomão: a falsa mãe que preferia ver o infante partido ao meio a contemplá-lo nos braços da rival; a verdadeira, dotada de alteridade e amor genuíno, abriu mão da posse para preservar a vida do filho. Guardadas as proporções, o parlamento brasileiro transborda de falsas mães políticas. Preferem ver o Estado lacerado, a economia sangrando e a população à míngua, desde que o espólio da vitória não seja creditado ao rival de palanque. É a lógica infantil do “quanto pior, melhor” — o fetiche pelo caos posto em prática por quem prefere incendiar a própria casa a admitir que o inquilino do lado executou uma boa reforma.
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O que se condena nele não é um erro de cálculo. É a coragem de romper o pacto. Pois a manada não perdoa quem sai da fila — não pelo que a saída significa, mas porque ela expõe, em praça pública, que a fila sempre foi uma escolha e não uma fatalidade. Cada pragmático que se levanta é um espelho cruel para todos os que preferem o conforto estéril da cegueira por atacado.
Enquanto isso, há quem prefira salvar a criança, ainda que isso custe o aplauso efêmero da claque. No fim das contas, a verdadeira política de alto nível não é aquela que mente bem para vencer a eleição, mas a que tem a coragem de encarar os fatos para salvar o Estado.
A pergunta que fica, e que a próxima eleição responderá, é simples: quantos estão dispostos a enxergar — e quantos preferem, para sempre, o conforto de não ver?