
Platão cometeu o erro histórico de não ter nascido no Brasil. Teria evitado três travessias rumo a Siracusa, onde sonhava transformar um tirano em rei-filósofo, e o vexame que a tradição narra com prazer: já na estreia, Dionísio cansou-se de tanta franqueza e mandou leiloar o hóspede no mercado de escravos de Egina. Um admirador o comprou de volta, e o autor de A República passou décadas ensinando que a cidade perfeita existe, sim, mas no mundo das ideias.
Nós aperfeiçoamos a doutrina e dispensamos o navio. Basta a realidade apertar para fecharmos os olhos e enxergarmos um país reluzente onde a grama do vizinho é de esmeralda e o imposto não passa de lenda.
Foi esse sonho que embalou as madrugadas de quem saiu das urnas contrariado. Mal terminou a apuração da nossa eleição, as buscas por “como morar no Paraguai” saltaram 1.700% em dois dias, e Ciudad del Este se tornou, nas redes, a nova Terra Prometida. Uma semana depois, mais da metade dos paraguaios adultos procurava outra coisa no celular: o próprio dinheiro.
Na terça-feira em que os americanos votavam, o Banco Central paraguaio interveio no Ueno Bank, que crescera à sombra do palácio e guardava as economias de três milhões de clientes. O presidente Santiago Peña, ex-sócio do grupo controlador, havia posto um executivo do Ueno no comando do mesmo Banco Central que agora o fechava. Na quinta-feira, abandonado até pelos correligionários, apresentou a renúncia, mas o Congresso se negou a aceitá-la, o que lhe garantiria imunidade. Os deputados aprovaram por 78 a zero a abertura do impeachment, e o mandatário, que pretendia sair de cena pela coxia, terá de voltar ao palco para se defender diante dos senadores. Quando estas linhas forem publicadas, talvez já tenha ido para o beleléu.
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Entre os correntistas que ficaram a ver navios há brasileiros, e nem todos partiram por ideologia. Uma mulher que se mudou após as enchentes do Rio Grande do Sul abriu o aplicativo e encontrou bloqueado o caixa da lanchonete que montara em Hernandarias. Com ela não cabe ironia; esta vai inteira para os messias da travessia, que vendiam o éden a prazo.
O velho ateniense, aliás, já descrevera o truque no livro VII de A República. Nele, prisioneiros acorrentados no fundo de uma caverna tomam por verdade as sombras que outros, às suas costas, projetam na parede. A caverna de hoje anda no bolso e exibe a conta de luz camarada, mas esconde que seis em cada dez trabalhadores paraguaios vivem na informalidade e que imposto baixo nunca substituiu instituição sólida. Ninguém filma o extrato.
A tentação de idolatrar o estrangeiro nunca se limitou à Ponte da Amizade. Olhou-se para o norte com a reverência de quem contempla o Olimpo, e o trumpismo, com sua retórica estridente, foi festejado na condição de motor perpétuo da modernidade. Pois a montanha sagrada desabou naquela terça. Os democratas tomaram o Congresso, e Donald Trump admitiu que a guerra no Irã e a carestia pesaram na derrota, a pior do partido em meio século.
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O golpe mais saboroso veio do Texas, onde a oposição amargava 32 anos sem vencer uma disputa estadual. Ken Paxton, o escolhido da Casa Branca, perdeu a corrida ao Senado para James Talarico, que comparou o feito ao de Davi sobre Golias. Greg Abbott, que gastou quase oito vezes mais, foi derrotado por Gina Hinojosa, defensora da escola pública e futura primeira latina no governo texano.
É aí que o surrado bordão ganha sua versão mais ácida: Deus é brasileiro.
No filme de Cacá Diegues, inspirado em um conto de João Ubaldo Ribeiro, Deus tem o rosto de Antonio Fagundes e, cansado da humanidade, desce ao Nordeste à procura de um santo que o substitua nas férias. Não escolheu o endereço por acaso: quem cresce sob aquele sol aprende cedo, com a seca, a desconfiar de miragens.
Suspeito que o Criador adiou o descanso para acompanhar o noticiário de camarote e que é brasileiro não por benevolência ingênua, mas por um senso de humor impecável: entre uma terça e uma quinta, o roteirista lá de cima entregou um refúgio tributário com o presidente no banco dos réus e um Olimpo sem maioria.
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O Brasil não fez milagre. O segundo turno foi apertado, e quem garantiu o resultado foi o Nordeste, que deu a Lula 13,7 milhões de votos de vantagem, o triplo da diferença nacional. O mérito, contudo, é coletivo: o embate foi duro, e as instituições saíram dele inteiras. Mais de um ano antes, a revista The Economist já afirmava que o papel de adulto democrático migrara para o hemisfério sul. O país de onde tantos queriam fugir virou a lição que os professores de ontem fariam bem em estudar.
Platão voltou de Egina vendido, resgatado e, dizem, mais prudente. Se estivesse vivo, não rasgaria os manuscritos: acrescentaria uma nota de rodapé em português, avisando que a utopia importada racha na primeira curva da realidade e que a grama do vizinho, vista de perto, também paga boleto.
O cineasta, que nos deixou no ano passado, chegou a filmar a continuação, e o título, que parecia piada, ganhou cara de manchete: Deus Ainda É Brasileiro. E continua, não por nos poupar das quedas, mas pela paciência de esperar, sentado na varanda, que a gente aprenda sozinho o que custou a liberdade a um filósofo grego: o paraíso nunca fica do outro lado da ponte.