
Escrevo esta coluna para leitores que ainda não acompanham notícias: meus netos. Escrevo para o dia em que, já crescidos, encontrarem estas linhas nos arquivos deste portal e quiserem saber onde estava o avô no domingo, 25 de outubro de 2026, quando os brasileiros foram às urnas decidir não só quem os governaria, mas que espécie de país aceitariam ser. Deixo a resposta registrada, com data e assinatura, para que ninguém a distorça: não fiquei ao lado de quem promete perdoar golpistas e já condecorou na cadeia o homem que viria a ser apontado como chefe de milícia; não fiquei contra a proteção das mulheres nem dei as costas aos homossexuais, aos pobres e a todos aqueles que os “patriotas” se acostumaram a humilhar com um sorriso no canto da boca. Se um dia lhes contarem que, naquele outubro, muitos se calaram, saibam que eu não estava entre os silenciosos.
Com estes olhos que trinta anos de fotografia treinaram para não perder detalhe, assisti à entrevista concedida à Folha de S.Paulo pela economista Daniella Marques, coordenadora do plano de governo de Flávio Bolsonaro e cotada para comandar a economia caso ele vença. Os entrevistadores perguntaram onde cairia a tesoura do ajuste de até R$ 250 bilhões estudado pela campanha. Com a mão no queixo e o ar enfastiado de quem atende a um aluno inconveniente, ela respondeu que não era a Mãe Dináh, que não falariam, que levariam todos ao Congresso para “cortar na carne” e que “depois a gente vai discutir o que sobra”. O próprio jornal informou que a equipe estuda desatrelar aposentadorias, pensões e o Benefício de Prestação Continuada dos ganhos reais do salário mínimo e trocar a regra que prende os pisos de saúde e educação à arrecadação por um reajuste que só acompanhe a inflação. A carne, portanto, tem endereço: é a do aposentado, a do doente na fila do SUS, a da criança na escola pública. Quanto ao que sobra, já sabemos: sobra o deboche.
Gente assim já nem se dá ao trabalho de fingir. François de La Rochefoucauld escreveu que a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude, e a velha máscara, ao menos, admitia que havia algo digno de reverência. O que vemos agora dispensa até essa cortesia: o desprezo pelo outro já não se esconde atrás de eufemismos; exibe-se de queixo apoiado na mão, diante das câmeras, com a serenidade de quem sabe que terá claque. Em um podcast que circulou nesta semana, a mesma economista, ao descrever o “cardápio” de trezentos cortes que pretende entregar ao candidato, arrematou: “só vai ter eleição daqui oito anos pra gente botar o Brasil no lugar”. Talvez quisesse falar de dois mandatos. Sigmund Freud, porém, ensinou que o ato falho costuma revelar mais do que a frase pretendida, e, para quem nasceu sob a ditadura, como eu, um anúncio de oito anos sem eleição não soa como cronograma: soa como ameaça.
Por isso considero a escolha deste domingo a mais grave de nossas vidas e me recuso a tratá-la como um duelo de planilhas. A economia importa, e muito, mas o voto que digitaremos na urna eletrônica vai definir algo anterior ao preço do arroz e à cotação do dólar: se aceitaremos a opressão como método e se o deboche e a falta de humanidade se tornarão corriqueiros, parte da paisagem, como esses outdoors que, de tão vistos, já ninguém enxerga.
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Não exagero, e enumero os fatos para que não sejam confundidos com opinião. O candidato que nos pede o voto chama de farsa o julgamento que condenou o pai a vinte e sete anos e três meses de prisão por liderar uma tentativa de golpe de Estado e promete trabalhar pela anistia ainda na transição ou, se ela não vier, pelo indulto. Em 2005, como deputado estadual, levou a Medalha Tiradentes, a maior honraria do Legislativo fluminense, a Adriano da Nóbrega, então preso e mais tarde apontado pelo Ministério Público como chefe do Escritório do Crime, e chegou a empregar no próprio gabinete a mãe e a mulher do ex-capitão. O plano do senador não dedica uma linha à proteção da população LGBTQIA+ e só se lembra dela para barrar atletas trans das competições femininas. O sobrenome que ele carrega, enfim, é o do patriarca que, da tribuna da Câmara, disse a uma parlamentar que não a estupraria porque ela não merecia. Do outro lado da disputa está um governo cujos defeitos não escondo e ao qual não poupo críticas, mas que nunca me pediu silêncio.
Mais doloroso que o embate foi descobrir quantos aplaudem esse projeto sem o menor constrangimento. Em 1961, Hannah Arendt foi a Jerusalém encarar, no banco dos réus, Adolf Eichmann, o oficial nazista que organizou, de sua escrivaninha, a deportação de milhões de judeus para os campos de extermínio. Diante dele, não viu um monstro, e sim um funcionário zeloso, que se dizia mero cumpridor de ordens; percebeu ali que o horror dispensa chifres e tridente e deu a isso o nome de banalidade do mal. Eu a vi de perto, de sorriso largo e foto de família no perfil, no condomínio, na fila da padaria, na roda de velhos conhecidos que, de uma hora para outra, passaram a ver em quem pensa diferente um inimigo a ser calado. Quanta gente fascista ao nosso redor, meu Deus. Quanta maldade dormia ali, a um palmo de nós, à espera apenas de licença para acordar.
Para quem vive da palavra e da imagem, o que está em jogo tem nome e tem trilha sonora. Em 1973, no palco do Anhembi, em São Paulo, Chico Buarque tentou cantar com Gilberto Gil uma canção já proibida pela censura, e os microfones emudeceram um a um, enquanto ele trocava de aparelho e o silêncio o perseguia de um pedestal a outro. Era Cálice, nascida em uma Sexta-feira da Paixão, quando Gil se lembrou da súplica de Jesus no Getsêmani. Ao ouvir o refrão, Chico percebeu o que os censores também perceberiam: dito em voz alta, cálice soa como cale-se. Não preciso de bola de cristal, nem de Mãe Dináh, para saber o que significa entregar o país a quem trata como farsa a condenação de um golpista. Para os que, como eu, escrevem, fotografam e opinam em praça pública, a derrota de Lula nas urnas representará a volta do cale-se, talvez sem carimbo nem censor de plantão, mas com a eficácia do medo, do processo judicial, do contrato cancelado e da patrulha que bate à porta das redações.
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Que fique igualmente claro o que acontecerá se o resultado for o oposto. A vitória de Lula não me tornará dócil: na segunda-feira, estarei aqui a cobrar o que falta, a lembrar que direito conquistado não é favor de governante e que a proteção das mulheres, dos homossexuais e dos pobres precisa avançar, e não apenas sobreviver. Elie Wiesel, ao receber o Nobel da Paz, em 1986, advertiu que a neutralidade ajuda o opressor, nunca a vítima, e que o silêncio encoraja o carrasco, nunca o atormentado. Tomei partido, mas partido não é coleira: quem não se cala diante do adversário também não se cala diante do aliado.
Atravesso estes dias com a família junto a mim, coesa contra quem tanto quer amordaçar nossas vozes, e é a ela que devo a coragem deste texto. Peço ao Pai, como fizeram Gil e Chico, que afaste de nós esse cálice. Se não for afastado, beberei de pé o que vier e continuarei a escrever, porque a dupla do Anhembi me ensinou que se pode cortar o microfone sem calar a canção: cinco anos depois, ela chegou ao disco e nunca mais saiu do ouvido do país. Ganhe quem ganhar, não me calarei. E vocês, meus netos, quando encontrarem esta página, saberão que o avô, naquele domingo, escolheu o lado de quem não ri da dor alheia.