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Marcelo Moryan é Publicitário, Designer, Escritor, Fotógrafo, Artista Multimídia e tem mais de 90 prêmios nacionais e internacionais na sua carreira.

Coluna Marcelo Moryan: A chuva – o grande demaquilante da gestão pública

Por Marcelo Moryan

Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 13:57
Atualizado em 21 de janeiro de 2026 às 13:57

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Coluna Marcelo Moryan 1
Foto: Marcelo Moryan

Dizem que a água é vida. Para os poetas, inspiração. Para o sertanejo, milagre. Mas para a administração pública — seja aqui em Guarapari, nosso paraíso, ou nas grandes capitais —, a chuva é o Inimigo Público Número Um.

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Não se enganem. O medo dos gestores não é da enchente em si, nem do transtorno ao cidadão (esse, coitado, já nada de braçada no descaso há décadas). O pânico real é outro: a chuva é honesta demais. Ela é o auditor fiscal que ninguém contratou. Implacável, vem e arranca, sem dó nem piedade, a maquiagem barata que a prefeitura passa na cara da cidade.

Vivemos a “política do reboco”. O famoso tapa-buraco, aquela obra cosmética feita com cuspe e piche frio, que dura exatamente até a primeira nuvem escurecer. A cidade vive maquiada, escondendo rugas profundas e fraturas expostas. Mas aí vem São Pedro, esse grande estraga-prazeres, e lava tudo. O resultado? A maquiagem escorre pelo ralo — isso, se o bueiro não estiver entupido. O que sobra é a verdade nua, crua e esburacada.

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“Toda vez que você vê algo bonito na água, lembre-se: a chuva não mente, ela revela.”
— Provérbio africano adaptado

E quando finalmente “consertam”, a proeza é digna de nota: pioram. A gestão passada investiu milhões numa obra na Avenida Beira Mar, Praia do Morro. O objetivo? Resolver o alagamento e o esgoto. O resultado? Transformaram o problema em espetáculo. Antes a água empoçava; agora ela se apresenta com pompa e circunstância. Milhões de reais para aperfeiçoar o desastre. Nunca consertam de verdade. E nas raras vezes que mexem, a cidade ganha um presente envenenado: o caos, agora com nota fiscal.

A falta de planejamento transformou nossas ruas num parque temático do absurdo. O asfalto, que deveria ser tapete, virou circuito de motocross. Outro dia, dirigindo com meu neto — que na sua inocência capta o mundo de forma infinitamente mais límpida que nós —, o carro começou a sacolejar nas crateras.

Ele, lembrando de seu cavalinho de brinquedo, entrou no ritmo: “Pocotó, pocotó, pocotó!”. Ria, feliz da vida. Para ele, diversão pura. Para a suspensão do meu carro, agonia terminal. Para a prefeitura, deveria ser vergonha registrada em cartório. Estamos todos num rodeio involuntário, patrocinado pelo IPTU que pagamos religiosamente.

A ironia não para no hipismo urbano. Temos também o turismo náutico de calçada. Passando pela Avenida Beira Mar — nosso cartão-postal, a vitrine da cidade —, a chuva tinha feito o favor de revelar a topografia lunar do asfalto. A água se acumulava generosa, formando uma lagoa digna de propaganda de resort.

Meu neto, olhos brilhando, sacou o boneco Baby Shark. Pediu para nadar. Não no mar, que estava logo ali ao lado. Não. Ele queria a lagoa. A que se formou no meio da nossa principal avenida. Confundiu infraestrutura falida com parque aquático. E quem pode culpá-lo? Se a prefeitura trata drenagem como folclore, a rua vira atração turística mesmo.

O que acontece em Guarapari não é exclusividade nossa. Longe disso. É o retrato em miniatura de 99% das cidades brasileiras. De norte a sul, repetimos a mesma liturgia: promessa eleitoral, obra que piora o que já estava ruim, e o povo que aplaude porque veio visita e trouxe bala. Será que gostamos mesmo de viver no “quase”? No “depois a gente resolve”? No eterno “pelo menos pintaram”?

Talvez o problema não esteja só nos gestores. Talvez esteja também no espelho. Naquele momento em que escolhemos entre quem promete resolver e quem promete sorrir bonito na foto. Adivinha quem vence?

A chuva, meus caros, não cria o buraco. Ela apenas retira a fantasia de quem jura que o fechou. Continuaremos no pocotó do cotidiano, desviando de lagoas imaginárias, assistindo a cidade derreter a cada tempestade.

Será que escolhemos viver assim, ou já estamos tão acostumados com a água no pescoço que confundimos naufrágio com paisagem?

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