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Marcelo Moryan é Publicitário, Designer, Escritor, Fotógrafo, Artista Multimídia e tem mais de 90 prêmios nacionais e internacionais na sua carreira.

Coluna Marcelo Moryan: “Justiça” se escreve com “Ç” ou com”$”?

Por Marcelo Moryan

Publicado em 14 de dezembro de 2025 às 18:00
Atualizado em 14 de dezembro de 2025 às 18:00

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Imagem: Marcelo Moryan

Uma cena me persegue há anos — e nunca foi tão atual. Eu lecionava em Marabá, no Pará, quando um aluno me perguntou, com toda a inocência que só as primeiras dúvidas carregam: “Professor, Justiça é com S ou com Ç?” Na época, respondi com a segurança de quem acreditava em gramáticas e instituições. Hoje, se ele me fizesse a mesma pergunta, eu diria: “Meu caro… talvez nenhum dos dois. Talvez se escreva com $.”

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E você? Consegue responder sem hesitar?

Tenho a sensação de que habitamos uma versão pirata do país, daquelas filmadas com câmera tremida e legenda mal traduzida. Até a Justiça, que deveria ser a palavra mais solene do vocabulário, parece ter virado produto falsificado de camelô institucional. E se você ainda acha que “nem todo mundo tem um preço”… bem, que sorte a sua habitar esse país paralelo onde a moral ainda não entrou em liquidação.

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Outro dia, naquele momento sagrado do café da manhã — quando a vida ainda parece normal, antes que o noticiário a desminta — li a manchete: o Presídio do Hipódromo, patrimônio histórico em área nobre de São Paulo, vendido por irrisórios R$ 11 milhões. Para efeito de comparação: um apartamento de luxo na mesma região custa mais que isso. Um valor que, para qualquer pessoa com mais de dois neurônios ativos, é no mínimo… curioso. Não acuso ninguém; apenas reitero o que foi publicado. Mas é incrível como, nesses negócios, o cheiro que sobe nunca é o da memória — é o da honestidade vencida, esquecida no fundo do estoque, com etiqueta de “últimas peças”.

E quando o roteiro já parece exagerado, surge o Congresso com sua vocação para plantão noturno — sempre em horário nobre para o absurdo. Em plena madrugada, aprova um projeto para reduzir penas de condenados por crimes contra a democracia. Sim, no Brasil até pena tem Black Friday. Com direito a cupom de desconto para quem souber usar.

Na crônica matinal de outro dia, vimos mais um capítulo dessa série tragicômica: um banqueiro envolvido em uma fraude de bilhões — bilhões com “B” de “Brasil, respire fundo” — foi preso pela PF ao tentar embarcar rumo a Dubai. Poucos dias depois, um habeas corpus o devolveu para casa com a eficiência de um delivery jurídico Premium — algo que só acontece em Macondo.

Enquanto isso, 12,4 milhões de clientes seguem pagando a conta, parcelada na dor. Segundo investigações já divulgadas à imprensa, parecia haver relações… excessivamente amistosas entre o magnata e quem deveria fiscalizá-lo. Nada além do que está público. Mas é curioso como, por aqui, criminoso só é perigoso até aprender a coreografia do sistema. Quando entende os passos — sempre sugeridos, nunca admitidos —, ele não vira réu. Vira parte do arranjo.

Do outro lado da moeda temos: um jovem negro é condenado a 8 anos por roubar um celular. Seu habeas corpus? Negado três vezes. Seu ‘delivery jurídico Premium’? Nunca chegou. Porque ele não conhece a coreografia, não tem magnata amigo e sua cor não abre portas — abre processos.

E é aí que me pergunto: ainda existe essa conversa de certo e errado… ou será que isso foi apenas um conto inventado para manter o motor do sistema lubrificado?

O mais irônico é que ninguém ousa falar tudo com todas as letras. Vivemos na metáfora, na insinuação. Criticar o sistema virou esporte radical — sem capacete, sem seguro, sem rede.

Sim, eu também sou cúmplice. Escrevo isso em segurança relativa, com educação que poucos têm, com plataforma que nem todos alcançam. Minha crítica é luxo; meu silêncio seria covardia; minha fala também é privilégio. Isso não invalida a denúncia — apenas a complica. Falar de injustiça a partir de um lugar de relativa segurança é sempre suspeito. Mas calar também é.

Aí me lembro do Chico Buarque, com aquela voz de lamento lúcido: “Acorda, amor… eu tive um pesadelo agora…” Só que o pesadelo, aqui, não passa quando a gente abre os olhos. Ele vira noticiário da manhã, leilão de memória nacional, VIP pass para quem nunca deveria passar e Justiça que só funciona no Plano Premium.

E nós? Seguimos dormindo ou fingindo. Albert Camus, em sua lucidez sobre o absurdo, talvez diria que o único modo de lidar com um mundo sem sentido é abraçá-lo, mas não sem antes questionar cada uma de suas premissas. E num país de sonâmbulos, até um acordado é uma revolução.

Volto à sala de aula em Marabá. Vejo novamente o aluno, com seu caderno e sua dúvida ortográfica. E percebo que a pergunta dele nunca foi sobre letra. A verdade é que já não sabemos mais como se escreve essa palavra. Só sabemos quanto ela custa e quanto vale o silêncio para não pagar o preço de falar.

E você, leitor… ainda consegue soletrar essa palavra em mutação? J U S T I _ A ou já decorou apenas a cotação?

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