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Marcelo Moryan é Publicitário, Designer, Escritor, Fotógrafo, Artista Multimídia e tem mais de 90 prêmios nacionais e internacionais na sua carreira.

Coluna Marcelo Moryan: Parábola: o reino das obras inacabadas

Por Marcelo Moryan

Publicado em 19 de abril de 2026 às 15:00
Atualizado em 19 de abril de 2026 às 15:00

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Imagem: Marcelo Moryan

No Reino de “Paga-se”, as eleições não escolhiam governantes. Escolhiam arquitetos de ruínas.

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Cada soberano chegava ao trono com um rolo de pergaminho azul e uma pá de ouro — como se a história fosse um figurino que se herdasse, lavado e passado pela geração anterior.

O Duque do Canteiro subiu aos microfones com a confiança de quem nunca teve que explicar nada.

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“Vou erguer o Mercado de Peixe. Onde hoje há lama, haverá fartura.”

Os súditos, que ainda acreditavam que promessa era contrato, entregaram suas últimas moedas de cobre. Viram as vigas subirem, cinzentas, imóveis. Esperaram pelo primeiro balcão de venda. Nada veio.

O mandato terminou. A estrutura permaneceu — esqueleto de concreto e ferrugem, oferecendo ao povo faminto uma escolha que ninguém pedira: esperar ou desistir.

Novas eleições. O Barão do Recomeço foi eleito com a lógica que só funciona quando ninguém está olhando muito de perto.

Olhou para o esqueleto do primeiro mercado e fez um sinal da cruz — como se estivesse vendo uma assombração.

“Meus súditos, esta obra está contaminada pela herança maldita. Terminar seria validar o erro alheio. É questão de princípios.”

E ali, naquele instante, o princípio virou máscara para “sei lá o quê”.

“Vou lançar a Pedra Fundamental de um novo Mercado de Peixe. Dois bairros à frente.”

O povo aplaudiu. Não porque acreditasse. Porque havia esquecido que o ouro do Duque e o ouro do Barão saíam do mesmo baú — o da corrupção. E quando o ouro de um mesmo lugar multiplica as promessas, a esperança vira indistinguível da mentira.

Assim, o reino “Paga-se” se tornou a maior galeria de obras inacabadas do mundo.

Mercados sem cobertura onde as crianças contavam as rachaduras nas paredes de concreto como quem aprende a ler o fracasso. Estruturas que terminavam no abismo. Ferragens enferrujadas sob chuva e sol — toneladas delas, custando mais que a fome que matava.

Depois, os súditos começaram a fazer piqueniques à sombra das obras paradas.

Um jovem — ainda não anestesiado pela normalidade — gritou:

“Mas nosso dinheiro está apodrecendo ali! Aquelas vigas são nossas vidas jogadas no lixo! E a gente morre de fome esperando!”

Um súdito mais velho, mastigando um pão seco e duro, nem tirou os olhos do celular:

“Deixa disso, rapaz. O importante é que o próximo Barão prometeu mármore na Pedra Fundamental. Sabe como é: governante assume, dinheiro vira ferrugem, a gente paga, e no final… o que importa é a foto. A foto da inauguração do começo.”

E ali estava tudo — parecia incompetência, mas era a arquitetura do sistema.

As obras permaneciam inacabadas porque o sistema precisava delas assim — promessas eternas de abundância, indignação em câmera lenta, e a foto da inauguração do começo como prova de que alguém, em algum lugar, estava fazendo algo.

No Reino onde a apatia vira costume, o governante não precisa de lixeiras. Precisa apenas de novos terrenos.

E de um povo que tenha esquecido que a Pedra Fundamental de um mercado que nunca abre é a sepultura do futuro — e do presente que ainda respira.

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