
Parabéns, Michelle. Você fez o que poucos tiveram coragem: escancarou as janelas do salão nobre do autoritarismo e mostrou que a grosseria não é apenas estratégia — é o DNA do seu próprio partido. Jamais imaginei escrever uma linha em defesa de qualquer figura dessa família. A essência do bolsonarismo, essa máquina de moer consensos e normalizar a truculência, é algo que combato com palavras e ideias. Mas a política nos coloca em encruzilhadas morais onde a coerência exige olhar para o humano por trás do monstro. E o que vi foi um homem, herdeiro de um sobrenome que fez da grosseria uma forma de governar, tentando silenciar uma mulher com a frase mais surrada do repertório misógino: “Você não entende de política”.
Não é espanto que ela tenha sido agredida. O espanto seria que tivesse sido poupada. Michelle está sentindo na pele o que qualquer mulher que ousa sair da cozinha para o centro do debate enfrenta: o desdém automático. Quando a mulher ameaça o trono masculino — mesmo que seja o trono de um aliado —, a primeira arma sacada é rebaixá-la intelectualmente. É o “fique no seu lugar”, o “você é apenas uma peça decorativa” — o mesmo machismo que une o conservador radical ao progressista, como se a capacidade de articulação fosse um cromossomo Y.
A cena evoca imediatamente o destino de Serena Joy em O Conto da Aia. Serena, a arquiteta intelectual de Gilead, acreditou que seu status de “esposa fundadora” lhe garantia o direito de ler a Bíblia diante dos comandantes para defender uma ideia. A resposta do sistema que ela mesma ajudou a criar foi pedagógica: cortaram o seu dedo. Gilead não aceita inteligência feminina, nem mesmo a das suas criadoras. Michelle vive agora o seu “momento Serena”. Ela teve a audácia de testar os limites do cercadinho e sentiu o gume da faca que ajudou a amolar. O desdém de Flávio é o dedo cortado simbólico: um lembrete de que, para o clã, a mulher é um estorvo quando sai da cozinha para a sala de estar. A inteligência dela é um ativo enquanto converte fiéis, mas torna-se um crime quando decide peitar o herdeiro. Afinal, como ele bem disse, aos olhos deles, ela “nada entende de política”.
Eu acredito na versão dela, não por alinhamento, mas por estatística de gênero. Conhecendo a “marca da casa” — essa necessidade compulsiva de passar o trator para se sentir maior — é perfeitamente crível que o tom tenha sido esse. A grosseria é a língua materna dessa gente. Mas não se engane. A política tem seus próprios venenos e estômagos fortes.
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Ao contrário da ficção, onde a dor deixa marcas permanentes, na realidade do clã a reconciliação é puramente fisiológica. Bastaram 24 horas para que aquela que foi humilhada e tratada como idiota já se apressasse em dizer que “não guarda rancor” e que está pronta para “trabalhar junto” com o seu agressor. É a velha dança das cobras. Michelle, ao selar a paz tão depressa, prova que aprendeu a lição mais suja do sobrenome que carrega: a sede pelo poder é o que faz alguém apertar a mão de quem acabou de mutilá-lo moralmente. Eles se odeiam e se desrespeitam nos bastidores, mas se abraçam quando o interesse do clã está em jogo.
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Michelle não se calou diante do machismo por dignidade; calou-se por estratégia. No fim do dia, ela mostra que é uma Bolsonaro legítima: aceita esconder a própria mão ferida para não perder o lugar à mesa de quem a despreza. O patriarcado bolsonarista é uma cobra que começa a comer o próprio rabo — e o veneno, no fim das contas, corre nas veias de todos eles.
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