
Há universos paralelos coexistindo à nossa volta, separados apenas por uma frequência sonora. Quem convive de perto com a perda auditiva identifica essa fronteira mesmo sem vê-la: a vida de quem não escuta plenamente tem outra textura e ritmo, uma geografia particular de ausências — um lugar onde as palavras chegam incompletas e o esforço de compreendê-las consome o dia inteiro.
Quando me deparei com a história de Lunna, um filme antigo passou pela minha memória. Ela tem 10 anos — quase a mesma idade que eu tinha ao começar a perder a audição — e nessa coincidência reconheci o contorno exato da minha jornada.
Eu carrego uma perda auditiva severa, daquelas que permanecem até com aparelhos que conheço bem e que transformam a minha rotina. Mas a tecnologia, por mais avançada, não apaga todos os abismos. Para navegar pelo mundo, dependo da leitura labial: o meu ouvido, na prática, são os meus olhos. Ninguém que não tenha vivido isso imagina a exaustão de decifrar cada movimento de boca, a sensação de estar sempre um passo atrás das conversas, das piadas que atravessam a roda, dos comentários engolidos pelo ruído. É um trabalho invisível, diário e solitário — feito de atenção redobrada e de perguntas que ficam sem resposta, porque dizer “pode repetir?” cansa mais do que não ouvir.
Por isso, quando encontrei a mãe de Lunna — uma dedicada agente de saúde de Guarapari, agora convertida em porta-voz de uma urgência —, não li só uma notícia: enxerguei o meu reflexo. E antes de abrir o coração, assinar esta coluna e convocar você para um ato de empatia, fiz o que qualquer colunista e ser humano responsável deve fazer: fui buscar os fatos. Analisei as audiometrias, verifiquei os laudos, conferi os pedidos médicos. Nenhuma linha desta página nasceu da imaginação. Esta é uma causa real — e ela precisa de nós.
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Tudo começou com indícios pequenos — que a correria do cotidiano ensina a ignorar. Um chiado persistente no ouvido direito. Depois, um corredor comprido na casa da avó, onde a menina parecia não responder aos chamados. “Sempre percebi, mas achava que era birra de criança”, confessa a mãe — e nessa confissão cabe a culpa silenciosa que pesa sobre tantos pais antes de o problema ter nome.
O diagnóstico chegou sem cerimônia, em números frios: perda moderada à direita, leve à esquerda. O impacto não tardou a aparecer no rendimento escolar e no comportamento. A menina esperta passou a se fechar — não por birra, mas por defesa. “Ela está se isolando aos poucos. Já estou levando ela ao psicólogo, mas tem dias que é difícil segurar o choro, de ver ela triste”, desabafa Raquel.
Seguiu-se então a via-crúcis do sistema público: exames na rede privada, consulta conquistada no HIMABA, encaminhamento para a reabilitação. E a frase da médica, pronunciada no posto, soou como uma sentença: o processo é demorado, e Lunna não tem esse tempo.
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O relógio neurológico de uma criança não espera. A cada dia sem intervenção, o pouco de audição que resta no ouvido direito encolhe. A adaptação de um bom aparelho deixou de ser conveniência para ser emergência absoluta. Orientada por especialistas, a família recorre a um modelo intermediário da Phonak (Sky L30 PR), capaz de filtrar os sons com precisão. No mercado particular, o valor está fora do alcance de quem arca sozinho. Foi quando uma colega sugeriu o caminho da solidariedade: uma campanha pública de arrecadação.
Eu sei, de dentro, o que um aparelho pode mudar — e o que custa crescer sem ele. Garantir esse aparelho a Lunna não se resume a devolver-lhe a música ou o canto dos passarinhos na janela: é restituir-lhe o próprio lugar no mundo — o colo da mãe, a voz dos colegas, a chance de permanecer dentro da roda, não à margem dela, onde tantos de nós já estivemos. “Tem dias que é difícil segurar o choro, mas tenho certeza de que vamos conseguir ajudá-la o mais rápido possível.” Duas vezes a mesma frase — como quem ainda não se conforma em pedir.
Se você puder e quiser, a família abriu uma conta bancária exclusiva para a campanha. Para apoiar, entre em contato direto com Raquel Oliveira – WhatsApp: (27) 98899-3755 – ou utilize os dados abaixo:
Nome da conta: Lunna Rafaela de Oliveira Pereira
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Instituição: Nubank
Chave Pix: 19260264707 | Meta:R$ 15.000,00
Talvez, em breve, Lunna volte a correr pelo corredor comprido da casa da avó — e desta vez ouça o chamado. A sua contribuição pode ser o som que muda o rumo de uma vida inteira.