
Em 1509, hospedado na casa de Thomas More, em Londres, Erasmo de Roterdã escreveu em cerca de uma semana o Elogio da Loucura, livro no qual a Loucura em pessoa discursa em louvor de si mesma e demonstra, com argumentos irrespondíveis, que, sem ela, a humanidade não se casaria, não guerrearia e não se candidataria a cargo algum. Mais de cinco séculos depois, sinto-me na obrigação de atualizar o mestre, porque a loucura saiu de moda e foi substituída por uma senhora menos excêntrica e muito mais rentável. Peço licença, portanto, para o elogio que o nosso tempo exige: o elogio da burrice.
E ela merece a homenagem: durante milênios, a coitada viveu escondida, envergonhada, obrigada a disfarçar-se de timidez nos jantares e a calar-se nas reuniões de condomínio, enquanto os sábios de plantão monopolizavam as atenções. Hoje a burrice não pede passagem nem desculpas: tem anel de luz, microfone de lapela, milhões de seguidores e, não raro, gabinete com verba pública. Descobrimos, enfim, que quem quer ser ouvido dispensa o conhecimento; basta fazer barulho, e quanto mais alto, melhor.
Nelson Rodrigues já havia previsto que os idiotas tomariam conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade. O que o velho tricolor não podia imaginar é que eles ganhariam também a capacidade, ou, quando nada, a ferramenta. Em 2015, ao receber o título de doutor honoris causa em Turim, Umberto Eco constatou que as redes sociais haviam dado o direito à palavra a uma legião de imbecis que antes só falavam no bar, ao fim de um copo de vinho, e que agora tinham a mesma voz de um Prêmio Nobel. Eco foi otimista: passados onze anos, o imbecil não apenas fala como o Nobel, mas fala com mais alcance, é mais compartilhado e, sobretudo, mais votado.
Os exemplos sobram, e cada leitor saberá preencher as lacunas. Há o parlamentar que subiu à tribuna de peruca loura, no Dia Internacional da Mulher, para debochar das mulheres trans, e colheu da proeza uma condenação, mais tarde anulada em nome da imunidade parlamentar, e uma multidão de admiradores, que nenhum tribunal anulou. Há o vídeo que garantia não haver taxação do Pix, mas acrescentava, com a malícia de quem conhece o ofício, que não duvidava de que viesse a haver; quase trezentos milhões de visualizações depois, um governo inteiro revogou uma norma que jamais taxara coisa alguma. Há o jovem eleito com votos suficientes para lotar quase quarenta Maracanãs, autor de uma confissão de franqueza desconcertante: o confronto viraliza mais do que a proposta, e ele próprio já opinou sobre o que não dominava. E há, para que ninguém me acuse de enxergar a burrice de um lado só, o presidente de um país vizinho que achou elegante escrever “Heil Hitler” em uma rede social, a título de ironia, e ouviu de um embaixador nas Nações Unidas que devia desculpas.
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O fenômeno tem explicação científica, e é aqui que o elogio se complica. Em 1999, os psicólogos David Dunning e Justin Kruger demonstraram que os menos competentes tendem a superestimar a própria competência, justamente por lhes faltar o conhecimento necessário para reconhecer os seus limites; a ignorância, em suma, vem de fábrica com o selo da certeza. Sócrates, que dizia saber apenas que nada sabia, não teria a menor chance em um debate de trinta segundos: perderia para o primeiro sujeito que gritasse mais ou encerrasse a conversa com um emoji de palhaço. O algoritmo, por sua vez, não distingue a verdade da mentira nem o sábio do tolo; distingue somente o que prende o polegar do que o deixa passar, e nada prende tanto o polegar quanto a raiva.
Carlo Cipolla, historiador italiano da economia, escreveu em 1976 um pequeno tratado, As leis fundamentais da estupidez humana, que deveria ser distribuído nas escolas e nos grupos de família. Nele, adverte que sempre subestimamos o número de estúpidos em circulação e define o estúpido como aquele que causa prejuízo aos outros sem obter vantagem para si, podendo até sair perdendo. Por isso o considera mais perigoso que o bandido: este, ao menos, tem um plano, e quem tem um plano pode ser previsto. A burrice não tem plano, tem engajamento, e o engajamento não paga a conta; quem a paga é o aposentado que acreditou no vídeo, a mãe que deixou de vacinar o filho por conta de uma corrente de mensagens e o país que passa a decidir o seu futuro pelo critério do grito.
Também a boa educação, nos dois sentidos da palavra, tornou-se artigo de museu. Não é preciso ter estudado, porque o diploma é suspeito, nem ser educado, porque a gentileza não engaja. O insulto virou argumento, a grosseria virou autenticidade e a ignorância, rebatizada de “opinião própria”, ganhou o mesmo estatuto de trinta anos de pesquisa. Quem estuda é elite, quem duvida é fraco, quem pondera é isentão, e quem pede fontes ganha, de brinde, uma enxurrada de figurinhas.
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Confesso, já perto do ponto final, que sou um caso perdido. Continuo a ler livros inteiros, a desconfiar das minhas certezas e a acreditar que a dúvida é o primeiro degrau da inteligência, o que me condena à irrelevância algorítmica e a um punhado de leitores teimosos como eu. Nos três anos em que ensinei filosofia da arte no Pará, repetia aos alunos que questionar e pôr em questão é a única tarefa do pensamento, eco livre de Martin Heidegger, para quem o questionar era a piedade do pensamento. Erasmo, que conhecia os perigos de dizer verdades a sério, escondeu as suas na boca da Loucura para que os poderosos rissem antes de notar que riam de si mesmos. Faço o mesmo e deixo a carapuça sobre a mesa, sem nomes, para quem couber, já que a burrice, como toda celebridade, detesta ser ignorada e adora ser citada. Se ela vier reclamar, terá a chance de ler uma coluna até o fim, o que já seria, convenhamos, um começo.